FRASE DO DIA

Estou aqui para mostrar que nós vamos continuar de cabeça erguida, de mãos limpas, esse foi o jeito que eu escolhi de fazer política, e ninguém, nenhum vagabundo tipo o Alexandrino, vai inventar mentira sobre a minha vida pública.

(Deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) sobre o delator da Odebrecht Alexandrino Alencar)

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Nonato Reis

Mais do que romper a quietude da noite e ecoar mata adentro, a voz invadiu os ouvidos do pescador, tomou-lhe o cérebro de assalto, percorreu cada centímetro do seu corpo provocando ondas de suor e frio. Coriolano não era homem de se deixar intimidar com as peripécias da floresta. Já havia enfrentado situações inusitadas, como a de um albino que emergiu das águas, embarcou na sua canoa e tentou naufragá-la. “Deixe de ser ordinário. Volte pras suas trevas e me dê sossego que estou buscando o sustento dos meus filhos”, repeliu.

Baixo, atarracado, olhar penetrante, Coriolano conquistara o respeito da comunidade pela coragem e até rudeza com que enfrentava vivos e mortos. Jamais sucumbira ao peso de um desafio. Certa vez durante os festejos da padroeira do lugar, Santa Rita de Cássia, um pistoleiro com pedigree cruzou o seu caminho por tabela. Havia agarrado uma garota de 12 anos, filha do ‘cumpade’ Mané Onça, e arrastado para o mato diante do olhar patético de todos. O pescador desembainhou o facão americano e sumiu entre as árvores. Ao voltar trazia a menina sã e salva para os braços da família. Na mão esquerda exibia dois testículos ensangüentados.

Mas era no enfrentamento do sobrenatural que a fama de Coriolano ganhava força. Mesmo sendo católico convicto jamais duvidou da existência das coisas do além. “Defunto que vorta não merece respeito nem dó. É coisa de gente vadia, que num tem o que fazer lá em cima e vem brincar cum a gente”, respondia a cada estória que ouvia. E elas corriam soltas na fazenda do coronel Ponciano. A mais espetacular de todas era a de um gritador que surgia no meio da madrugada, infernizando os pescadores e tirando o sono das pessoas.

Até mesmo o coronel já havia passado pelo constrangimento de abandonar a pescaria. “Era noite de inverno. Eu e o Feliciano já havíamos pegado quase três dúzias de bagrinho. Foi quando o berro troou lá pras banda do Muricituba. Uma coisa medonha, descomunal. Nem tive tempo de perguntar ao cumpadre o que era aquilo. Outro berro surgiu desta vez mais perto. E mais outro…e outro mais. Arrancamos a canoa do pesqueiro e remamos feito loucos. Quanto chegamos em casa e fechamos as portas, a coisa achegou-se ao pé do girau e gritou de novo. Até o sobrado rangeu”.

Coriolano ouvia aqueles relatos em silêncio. No final arrancava uma lasca de fumo de rolo, colocava-a na boca, dava uma cusparada e comentava. “Nunca vi esses berros. Mas quero que o tal gritador me apareça. Tenho contas a acertar cum ele”. O coronel assustava-se com a ousadia do amigo. “Homem, num diga besteira. Sei da sua coragem e bravura. Mas esse grito não é da parte de Deus. Fique quieto e reze pra essa coisa num pegar você”. O pescador tirava outro pedaço de fumo, mascava e revidava. “Pois que venha. E que seja só eu e ele”.

Havia chegado a hora da verdade. Uma brisa suave penetrou o pesqueiro e tocou-lhe o rosto gelado. Como arqueiro que se prepara para o combate, Coriolano tirou o facão da cintura, colocou-o sobre o banco mais próximo e içou a igara para a margem oposta do rio. A voz ressurgiu, límpida, medonha: “êêêê Coriolano…é hoooooje!”. Num salto felino pulou em terra firme de arma em punho. O berro ecoou mais perto na boca do rio: “é hoooooooje”.

Quis voltar para casa, as pernas estancaram. Tentou pedir socorro, a língua endureceu. Uma rajada de vento o arrastou como folha seca para dentro de um casebre à beira do rio… e o grito estrondoso pareceu rasgar a terra, explodir a choupana: “é hoooooooooje!!!!”.
Petrificado viu a criatura diante de si. Quase três metros de altura. Negro como a noite. Cabelos afogueados, longos, tocando os calcanhares. Dos olhos, nariz e boca saiam faíscas avermelhadas. “Vim acertar as contas contigo. Não me chamou? Aqui estou. Levanta!”. Descobriu-se patético, imóvel, mudo. De repente o tempo parou. Os pensamento cessaram. Tudo escureceu. Ao abrir os olhos, na manhã seguinte, o pescador notou no fundo da calça algo pastoso, fétido. Passou a mão. Apurou o olfato. Estava perdido.


Se o músico foi “covarde” em não levar a cabo a ideia de se matar, ao menos teve a coragem de escrever sobre algo que muitos não têm ou não sabem como enfrentar essa questão.

Emocionante o texto do músico, compositor, escritor e ativista Tico Santa Cruz sobre sua experiência com ideias suicidas, publicado na sua página pessoal no Facebook.

O criador da Detonautas relata que desde a adolescência enfrenta a ideia de suicídio chegando, inclusive, a sentar na janela do prédio em que morava e criar coragem para se atirar e dar fim à própria vida, mas não teve coragem. “Me senti um covarde”, conta.

Neste planeta complicado, de estresse constante, correria pela sobrevivência, internet, redes sociais, um mundo de informações de todo que é especie etc, não é fácil viver com a tranquilidade de um monge budista.

Certa vez, durante uma palestra com um “guru” comportamental, ele falou que pensar em suicídio tornou-se algo comum, quase uma coisa natural. Chegou a dizer que “anormal, no mundo de hoje, é não ter pensado algum momento em tirar a própria vida”.

O texto do Tico Santa Cruz vai nessa direção.

Entretanto, se o músico foi “covarde” em não levar a cabo a ideia de se matar, ao menos teve a coragem de escrever sobre algo que muitos não têm ou não sabem como enfrentar essa questão.

Fiquem com o texto/depoimento de Tico Santa Cruz.

Fiquem com Deus também!

Eu lido com a ideia do suicídio desde a adolescência. Fantasio essa morte. Perdi a conta de quantas vezes só me faltou coragem para ir adiante. Os motivos sempre foram dos mais variados. Não sofri Bullying na escola, na minha época o Bullying não tomava as proporções que a internet potencializou. Minha questão estava relacionada com a sensação de rejeição que eu sentia por parte das pessoas próximas. Da incompreensão. Da não aceitação da minha maneira de ver o mundo de viver a vida. Dos conflitos intermináveis que vivi dentro da minha casa com minha família. Do sentimento de que esse lugar aqui é hostil demais para mim.

Lembro quando sentei na janela do prédio onde morava e fui vasculhando cada espaço entre os miolos do meu cérebro para encontrar o impulso que desse fim ao meu sofrimento. Não consegui. Me senti um covarde.

Eu me imaginava fincado na grade de segurança do prédio. No fundo eu queria me vingar do mundo, das pessoas.
À medida que fui crescendo, o pensamento nunca deixou de frequentar minha mente. Nos momentos mais complicados, e não foram poucos, só essa saída me parecia viável.

Não quero expor outras pessoas, mas fiz contato com o suicídio ou a tentativa dele por gente que eu amo muito, algumas vezes.
Quando comecei a fazer sucesso como artista, você pode imaginar que a realização do meu sonho me daria milhares de motivos para continuar a viver. Eu tive um filho e uma companheira forte e corajosa. Mas o contato com o outro lado da cortina – os bastidores – me revelou ainda mais farsas, falsidades, mentiras, egocentrismos, vaidades, manipulações e muitas limitações.

Isso me conduziu a um quadro de depressão e ansiedade. Comecei a ter crises de pânico diante de tantos compromissos, noites sem dormir, pequenas pressões, brigas, desgastes infinitos.

Quando tudo isso atingia o meu limite, começava a buscar novamente minha saída de emergência.

E fantasiava cortando os pulsos numa banheira, entupido de remédio e álcool para não sentir dor.

É o desespero. A falta de esperança. A falta de caminhos, perspectivas e a dificuldade de buscar outras formas de resolver as questões que mais inflamavam minha existência.

Ainda está aí?

Foi então que resolvi procurar uma terapia. Era isso ou a morte. Porque eu já sentia que estava bem perto de conseguir concretizar meu objetivo.

E encurtando um pouco outros episódios, foi que comecei a administrar meus fantasmas e meus anseios mais obscuros.

Sim!!! Foi a terapia quem me salvou. Foram os dias e dias, semanas, meses, anos de uma rotina terapêutica com a ajuda de uma especialista, que soube me conduzir a um encontro comigo mesmo que me ensinou a domar e lidar com essa questão.

Até hoje tenho meus pensamentos suicidas! Não sei… É algo que de fato está presente na minha cabeça. Contudo estou muito mais preparado para lidar com eles. E nunca tive vergonha de pedir ajuda. Ajuda mesmo!

Nestes três anos que se passaram onde eu entrei no olho do furacão dessa loucura que virou a questão política do Brasil, tive minha imagem exposta de diversas formas horríveis. Fui humilhado, bloqueado em meu trabalho, acusado de receber dinheiro que nunca recebi, rejeitado, apontado, ofendido, difamado, inclusive pelos meus próprios fãs. Exposto a linchamentos públicos por pessoas que considerava meus amigos. Minha família foi AMEAÇADA de morte, recebi milhares de mensagens de ódio com conteúdos absurdamente doentios. Vi tudo que eu havia construído com muita dedicação e amor, ser atingido por todo tipo de ataques.

Só que eu já me conhecia bem. A Terapia me deu todas as armas que eu precisava para lutar contra esse caos.

Você não tem a menor ideia do que é ser uma pessoa pública, um artista, e se ver diante de tanto ódio e tanta exposição negativa.

Calhou também de eu ter optado por ficar limpo, não estar usando nenhuma droga nesse período. Porque a droga te mina, deixa sua cabeça mais fraca, te fragiliza, te dá paranóias. Então se eu estivesse usando drogas nesse momento que passei, certamente não teria conseguido segurar a onda.Teria dado um tiro na cabeça e resolvido tudo.

Porém, eu sou forte. Aprendi a ser forte! Encarei meus desafios de cabeça erguida. Continuo encarando. A ideia do suicídio ainda aparece para mim? Sim… Mas eu sei lidar com ela, graças a terapia.

Ver essa série que trata sobre o esse ponto tão delicado da existência humana, tem mexido muito comigo. Eu sei o que é aquilo ali, de forma diferente, mas sei. Me angustia profundamente. Eu choro sem querer. Me identifico. Lido com um turbilhão de sensações. Não consigo assistir mais de 2 capítulos seguidos. Ainda não terminei.

Mas me motivou a abrir essa parte da minha vida publicamente. Para dizer que apesar de tudo, vale a pena continuar vivendo e lutando contra meus monstros. Vale a pena seguir acreditando que seja possível vencer as barreiras, as rejeições, o ódio, e todo esse cenário de medo e desespero que estamos vivendo.

Tenho razões claras para dizer a você que assim como eu já pensou ou já chegou bem perto de dar fim a própria vida. Procure ajuda! Lute! Não desista!

A gente está aqui para aprender e o sofrimento nos ensina muito! A maturidade vem. É possível seguir!

Acredite em mim.


DEFINITIVAMENTE o prefeito Edivaldo Holanda não tem “dado” sorte naquela que deveria ser sua pasta mais cara: a Educação. Herdado o governo dele mesmo, ou, como diria um outro, de si para si, este ano ainda não mereceu uma boa notícia do setor. Mais de uma vez já foi “surpreendido” com protestos dos pais e alunos que reclamam nos vários pontos da cidade das péssimas condições das escolas, da ausência de vagas, do ano letivo anterior que não terminou e do atual que não começou. Ou com noticias de escolas ruindo em diversos pontos da urbe.

Os jornais e demais órgãos da mídia dia sim, e no outro também, trazem notícias de escolas sem condições de uso. A última matéria que li dava conta de que seriam 40 escolas da rede municipal sem condições de receber seus alunos. Estes, na melhor da hipóteses, devem está assistindo aula em prédios improvisados e que devem custar fábulas aos cofres públicos, enquanto as obras de recuperação das escolas da rede municipal têm a celeridade da confecção do manto de Penélope, basta citar como exemplo as UEB’s Bandeira Tribuzzi e Alberto Pinheiro, fechadas, para reformas, já há mais de dois anos e, tendo consumido recursos vastos, permanecem sem previsão de entrega.
Aqui e ali, ouve-se o murmúrio de denúncias de corrupção na contratação de tais obras ou da péssima qualidade das mesmas, incapazes de resistir a uma fiscalização mais rigorosa, se é que algum dia sofrerão uma.

E, já no quarto parágrafo, não tivemos a chance de falar sobre qualidade de ensino. A capital do estado, para o nosso desalento, ainda admite como integrantes da rede as tais “escolinhas comunitárias” que, com as honradas exceções, mas atrapalham que ajudam na formação dos alunos, tornando-se, quase sempre, meros biombos para a sangria dos cofres públicos, para utilização política e outros crimes contra o futuro destes infantes.

São crianças e adolescentes que veem na educação uma chance de mudar seu destino e que não recebem do poder público as mínimas condições.

O prefeito, por último, tornou-se, involuntariamente, protagonista de uma “tragédia pronta”, com o desabamento da escola municipal Darcy Ribeiro. Estava longe, em Carutapera, quando alcançou-me a notícia de que o telhado de tal escola ruiu. Não tive como deixar de refletir sobre o quão irônico tal noticia representava.

Ora, o prefeito já no ano de 2015 ingressou no Partido Democrático Trabalhista – PDT, recentemente li, inclusive, que fora elevado a condição de dirigente do mesmo no âmbito nacional.

Pois bem, o PDT em que pese sua vertente trabalhista – o que motivou, por ocasião de sua fundação, desentendimentos com os fundadores do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB –, sempre teve como bandeira principal a educação, não qualquer educação, mas a de qualidade. Basta assistir seus programas. Desde 1981 e mesmo antes, os seu fundadores, principalmente Leonel Brizola sempre tiveram nesta bandeira seu discurso mais incisivo. Lembro que na campanha de 1989, a música de campanha do PDT era um coro de crianças (lá, lá, Brizola, lá, lá, Brizola…).

Esta formulação política, coma educação sendo o principal foco, teve como ideólogo, o escritor, antropólogo e político Darcy Ribeiro. Foi ele o idealizador, planejador, criador e implantador dos CIEP’s (Centros Integrados de Educação Pública), no governo de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro entre 1983/1987, quando foi vice-governador. Antes, no governo parlamentarista de João Goulart, fora ministro da educação. Em resumo, um brasileiro e político do tempo em que os políticos tinham preocupações que iam além de suas contas bancárias.

Foi, também, um dos fundadores do PDT, um dos signatários do seu manifesto, junto com Jackson Lago, que na condição de prefeito de São Luís, homenageou o ilustre educador, construindo e dando seu nome a uma das mais completas escolas municipais de sua época.

Esta é a nota irônica. Uma escola construída para homenagear um dos maiores educadores do país, responsável pela principal formulação política do partido, construída por outro ícone do partido, desaba na administração de um gestor do mesmo partido.

Isso, ainda que indiretamente, atesta às quantas anda a educação municipal, aquela que deveria servir de modelo para os demais municípios, não consegue sair do lugar, as pautas continuam as mesmas, os problemas idem.

O município não consegue, sequer, organizar e gerir sua rede física passados quatro anos.

Assim, com o máximo de boa vontade, fica difícil compreender e aceitar esse tipo de coisa. Outro dia falava das quarenta creches tipo 1 e 2 conseguidas pelo município das quais, até então, só licitaram 23 e só se encontravam em execução 3 e, ainda estas, estavam com o cronograma atrasado. E, já estamos no quinto ano de governo.

Além de creches, que o município não consegue fazer sair do papel, o governo federal disponibiliza através do MEC/FNDE, escolas em alto padrão com: 12 salas de aulas com capacidade para 40 alunos por sala;1 laboratório com 100 metros quadrados;1 refeitório; 1 biblioteca;1 cozinha industrial; piso em habilite; banheiros com divisórias em granito; esquadrias e cobertura metálica; toda na laje pre-moldada. pintura acrílica com emarsamento e com barra de revestimento cerâmico; abastecimento de água com reservatório metálico; quadra poliesportiva com cobertura metálica com arquibancadas e vestiários; e área externa pavimentada em ladrilhos hidráulico; uma área total construída de 2.970 metros quadrados.

O custo total orçado desta maravilha de escola é de menos de 4 milhões de reais.

Com tanta necessidade de vagas, com escolas que não atendem a demanda ou obsoletas, não temos notícia de São Luís haver pleiteado ao menos duas dúzias de escolas assim para colocá-las em pontos estratégicos da cidade e resolver, em definitivo, essa deficiência de vagas e qualidade de ensino. Se pediram ou conseguiram devem andar no mesmo passo das creches. O que é uma lástima pois escolas neste padrão prontas para receber as crianças elevariam o patamar da educação na capital.

Mas vamos dizer que o governo municipal não conseguisse uma única escola no padrão descrito acima do MEC/FNDE, será que município não conseguiria fazer um planejamento que assegurasse uma economia/mês, mesmo dos recursos da educação, que permitisse construir escolas assim? O projeto com todos os detalhes estão no site do FNDE, a municipalidade teria apenas o trabalho de “baixar” e executar.

Ao nosso sentir tem faltado ao executivo municipal determinação política e planejamento estratégico no sentido de resolver um problema que só se agrava com o passar dos anos. Ainda com toda crise que, sabemos, atinge os municípios brasileiros, poupar 4 milhões de reais/mês para investir na construção de escolas decentes, no padrão MEC/FNDE, não é uma tarefa impossível, num orçamento anual de quase 3 bilhões de reais onde mais de 500 milhões de reais apenas na pasta da educação.

Se tivessem focado nesta prioridade, negociado contratos, economizado nos diversos setores, já se teriam resolvido este problema e o prefeito não estaria sobressaltado com tantas cobranças – justas – da população, de pais e alunos; e ficando em situação desconfortável dentro de um partido que tem na educação sua bandeira principal.

Como disse – e repito –, em um orçamento de quase três bilhões economizar 48 milhões/ano não é uma tarefa de outro mundo. Ademais, a necessidade de economizar todos os 4 milhões/mês seria apenas na situação extrema do município contar apenas com recursos próprios, o que não é o caso pois, os governos federal e estadual, têm programas específicos para isso, sem contar as famosas parcerias tão alardeadas nas últimas eleições.

O prefeito ainda tem 44 meses de mandato, poderá estabelecer como prioridade economizar os 4 milhões necessários e ir construindo uma escola no padrão descrito acima por mês. Seria uma justa compensação diante de tantos desacertos e desatinos cometidos no setor.

Abdon Marinho é advogado.


por Nonato Reais

Como personagem, Pantera caberia em qualquer trama novelesca do saudoso Dias Gomes. Era fitá-lo e se lembrar do Bataclã, o famoso bordel de “Gabriela Cravo e Canela”, repleto de mulheres “de vida fácil” e de homens “com a vida ganha”, que driblavam o tempo se divertindo entre copos de cerveja e o vértice de um belo par de coxas. Tornou-se meu amigo no dia em que, de posse de um passe livre, entrei no ônibus que ele dirigia e lhe exibi o distintivo.

Ele olhou-me dos pés à cabeça e depois indagou: “Meu filho, tu é irmão do Tina?”, ao que respondi prontamente: “sou primo!”. Ele abriu um sorriso largo e completou: “Então pode entrar, que parente do Tina é meu também”. Depois orientou-me a guardar o documento que, como agente de trânsito, dava-me o direito de andar nos coletivos sem pagar passagem. “Isso pra mim não vale nada. O que conta mesmo é a sua ligação com o Tina”.

Era mulherengo até a alma. E também temido. Contavam que ele tinha as “costas quentes” com o dono da empresa de ônibus na qual trabalhava, de quem, mais do que motorista, atuava mesmo como capanga, ou chefe da cabroeira. Se era verdade ou não, nunca ficou provado, mas ele vivia a alardear os laços de afeto com o patrão. “É meu chapa”. Chegava à empresa sempre atrasado.  “Não tenho hora para trabalhar. Se o chefe precisar de mim, sabe que pode me acordar até no bordel, que eu já saio de lá voando”.

Ser amigo de Pantera era um privilégio e também uma segurança. Privilégio, porque, quando gostava do sujeito, dava a vida por ele. Segurança, por razões lógicas. Ninguém seria besta de se meter com gente dele. Nosso ponto de encontro era o Recanto da Luz Vermelha, onde o tratavam como lorde. Ali batia ponto geralmente após as 22 horas. Chegava e já encontrava a melhor mesa reservada, com as melhores garotas e os tira-gostos especiais.

Se me via já batia com a mão, ordenando-me para que lhe fizesse companhia. Daí para frente era por conta dele: bebida, comida, mulheres. “Meu filho, aqui tudo é nosso. Pode deitar e rolar”. Às meninas selecionadas para tomar parte ma mesa, apresentava-me invariavelmente como “o primo do Tina”. “Esse aqui é gente nossa. Cuida dele como se fosse meu filho”, dizia para as meninas que se aproximavam de mim.

O cara metia medo pelo porte físico. Tinha quase dois metros de altura, braços de pugilista. Não bastasse, andava com o peito estufado, como a chamar para a briga o primeiro que se metesse no seu caminho. Mas era um pé de valsa. Quando ia para o meio do salão acompanhado de uma dama, de tão leve parecia levitar, e entre passos e rodopios ocupava o salão de ponta a ponta, para o êxtase da plateia que o acompanhava admirada.

Eu presenciei poucas e boas com Pantera. Numa delas, ele salvou a pele do meu primo, literalmente. Foi uma noite em que, liso (como de costume), Tina decidi passar a noite com uma garota recém-saída do casamento, mas com quem fizera “amizade” e dela se tornara cliente preferencial. Já no quarto, surge do nada um sujeito com uma faca em punho, dizendo-se marido da garota, e parte para o ataque a Tina que, lívido de medo, começou a correr em volta da cama e a berrar por socorro. Pantera meteu o pé na porta, agarrou o agressor pelo colarinho e o arrastou até a saída do bordel, arremessando-o no meio da rua, como quem joga fora um saco de lixo. “Vá-se embora e não torne a perturbar o sossego deste recinto, porque da próxima eu te corto os ovos!”.

De outra feita, uma quarta-feira à noite, lá pelas 23 horas, eu saíra do Castelão, onde fora assistir ao clássico Moto X Sampaio, e por sorte dei de cara com ele ao volante. Sentei-me no primeiro banco da frente; dirigia risonho na companhia de uma garota que sentara no capô do veículo. Alguém pediu parada e ele, envolvido no clima de paquera, passou pelo ponto batido.

O cara reagiu irado. “Presta atenção, meu! Você fica aí de conversê e esquece de suas obrigações”. Pantera, que nunca engoliu sem mastigar, não deixou por menos. “Amigo, você está com ciúme dela ou de mim?”. Em resposta o sujeito sacou um “três oitão” e, arma engatilhada, desafiou-o. “Fala de novo, fala!” Na maior calma do mundo, repetiu: “Você está com ciúme dela ou de mim?”.

A distância de um para outro era de apenas um metro. Postado logo atrás deles, vi quando a mão que se segurava a arma começou a tremer. Depois, aproveitando que o ônibus havia parado, em atendimento aos passageiros que berravam desesperados, o agressor desceu do veículo e foi se afastando, sempre com o revolver em punho, até desaparecer do nosso campo visual.

Mais tarde, já refeito do choque, fui ter com Pantera que, alegre, tomava uma cerveja num bar próximo à parada final do ônibus. “Eu não sei se louvo a tua coragem ou se maldigo a tua loucura. Como é que você, indefeso na direção de um ônibus, afronta um cara com a arma apontada para ti à queima roupa?”. Ele bebeu o que restava da cerveja no copo e respondeu: “Nonatinho, pau de fogo não ficou pra qualquer um. Aquilo é um bunda mole. Eu conheço cara de tambor que amanhece”. Depois completou: “Ele teve foi sorte que hoje esqueci meu trabuco em casa. Mas o dia dele chega, deixe estar”.


por Nonato Reis

Marcelino “Barriga de Espelho” foi cultuado em Viana e região pelas gerações seguintes à proclamação da República. Até a deposição de Getúlio Vargas em 1945 seu nome ainda provocava espanto e gestos de admiração, como o único homem daquelas terras capaz de fecundar e criar na barriga uma serpente, e a ela sobreviver como que por encanto ou milagre divino.

Chegara às terras da Palmela ainda garoto, junto com a família, vindo do Cajari, então localidade pertencente ao território de Viana. O pai, Vitalino, mudara-se para a Palmela a convite do velho Antônio Feliciano de Mendonça, que o queria como capataz da sua fazenda, a essa altura ainda em formação. Assim cresceu em meio às agruras dos campos de pastoreio, aprendeu a cuidar do gado e da plantação, tornou-se o melhor vaqueiro das redondezas.

A extrema habilidade no manejo do gado e no cultivo da terra contrastava com as relações no campo pessoal. Era bronco, tolo, desajeitado. As mulheres, tratava-as como se fossem vacas. Certa vez, cansado de levar “fora” de uma mulher muito mais velha, que trabalhava na Casa Grande como dama de companhia, pegou-a no laço e a levou para o mato.

Foi um pandemônio dos diabos, a mulher chorava feito criança, dizendo que Marcelino à forçara a fazer sexo com ele. O velho Feliciano, homem diplomático, porém enérgico, teve que intervir na história, e depois de chamar os dois às falas e puxar as orelhas do vaqueiro, deu o assunto por encerrado. Seu Vitalino, preocupado com a rudeza do filho, tentava incutir-lhe modos. “Meu filho, mulher é como passarinho; se você não tiver paciência e jeito, não entra na gaiola”.

Bons eram os puteiros, cujas “gaiolas” viviam abarrotadas de “passarinhos”. Certa vez, passara seis meses no mato, levando o gado de um canto a outro, fugindo do duro inverno que castigara Viana, inundando os campos completamente. Ao retornar “na pedra” correu ao “Cabaré de Ingraça”, escolheu uma bela morena, pediu que lhe saciasse a fome de sexo. A mulher, treinada no ofício, apresentou-lhe o cardápio. “Você quer uma trepada simples, “de quatro” ou ‘na engenhoca’?”. Ele coçou a cabeça, achou a terceira opção interessante e a escolheu.

A mulher o amarrou em pés e mãos nos suportes da cama, subiu sobre ele e começou o movimento. Crescidos à solta, os pelos dela, rijos e fartos feito palha de aço, entrelaçaram-se aos dele, igualmente densos, e, à medida que girava sobre o eixo intumescido do homem, formavam-se cordas, que sob forte pressão, arrancavam tufos de pentelhos dos dois.
Marcelino gemia de dor. Pedia socorro, mas quanto mais gritava, mais a mulher rodopiava. “Fecha os olhos e goza, meu bem, que é a engenhoca”, pedia a mulher naquele giro alucinado. Terminada a sessão, ela olhou o traseiro dele e viu que depositara sobre o lençol uma coisa pastosa. “Meu filho, o que foi isso?” E ele: “foi o bagaço da cana”.

Porém o episódio que marcaria para sempre a vida de Marcelino e o faria conhecido como “Barriga de Espelho” aconteceu alguns anos depois. Ele começou a definhar. Perdeu peso e viço. A única coisa que crescia era a barriga, a cada dia maior, a ponto de brilhar e reluzir feito espelho. Chamaram o velho Trancoso, farmacêutico e médico sem diploma, porém com fama de milagreiro.

Trancoso morava na quinta que levava o seu nome, à beira do Igarapé do Engenho. Ali mantinha uma farmácia de manipulação com remédios para todos os males, de asma a gripe, úlcera e tuberculose. Preparava as fórmulas de sua própria cabeça e a elas dava nomes, às vezes jocosos. Havia o “peitoral de urucu”, para tosse; o “lambedor de jurubeba”, para prisão de ventre, e até as pílulas “arrebenta pregas”.
Após o exame tátil, Trancoso formulou o diagnóstico de Marcelino, mas guardou-o para si. Pegou uma bacia grande de alumínio e lavou-a com sabão. Nela depositou dois litros de leite e ferveu. Quando o leite amornou na bacia, mandou Marcelino sentar de cócoras sobre ela, sem olhar para baixo.

Meia hora depois, ordenou que levantasse. Na bacia, para espanto geral, jazia uma cobra imensa, medindo mais de sete metros de comprimento. “Eis a solitária que te devorava as entranhas”, disse Trancoso. A notícia correu mundo e Marcelino para sempre ficaria conhecido como “Barriga de Espelho”, o homem que dera à luz uma cobra.


 por Hugo Bethlem, via Instituto Akatu

Comentário Akatu: o brasileiro está refletindo mais antes de fazer uma compra, forçado pela crise econômica, como diz o artigo abaixo, do administrador Hugo Bethelem, que integra o Conselho Consultivo do Instituto Akatu. A crise é uma boa oportunidade para levar as pessoas a praticar o consumo consciente, mas é essencial que essa mudança de comportamento seja permanente. Para isso, é fundamental que as pessoas percebam que seus atos de consumo impactam não só no seu bolso, mas na sua vida, no meio ambiente e em toda a sociedade e na economia.

Será que o brasileiro está evoluindo para o Consumo Consciente? Esta pergunta aparece numa pesquisa realizada e publicada no caderno especial de Sustentabilidade do Estadão. A resposta pela pesquisa é SIM. O ICC – Indicador de Consumo Consciente desenvolvido pelo SPC Brasil e CNDL afirma: “as pessoas passaram a ter mais consciência da utilização de bens por causa da crise econômica”. Opa! Então estão evoluindo para o Consumo Consciente pela dor e não pelo amor!

Mas será que a culpa é dos consumidores brasileiros ou dos varejistas brasileiros que ao sinal da primeira crise (não que esta que estamos saindo não tenha sido brava, a pior desde o plano Real) invadem as TVs, Jornais e folhetos nas casas do consumidores para lhes oferecer “Promoções” , “Ofertas Imperdíveis”, “Leve mais e Pague menos” (Mesmo quando o Consumidor não precisa, não quer, ou não sabe nem porque esta comprando…outra pesquisa também do SPC aponta para 77% dos Consumidores entre 18 e 30 anos se arrependem de uma compra desnecessária que fizeram).

Onde está a consciência do varejo nessa hora? Ao invés de ajudar na educação financeira de seus consumidores, mesmo abrindo mão de ganhos imediatos ou vendas por impulso que na verdade só alimentam uma grande frustração destes na sequência.

O Brasil há muitos anos é o recordista mundial de reciclagem de latas de alumínio. Uau! Mas por quê? Por consciência ambiental ou por sustentabilidade financeira dos milhões de catadores no país que com isso vivem com uma renda superior a do salário mínimo? Ou seja, reciclagem gera impacto financeiro positivo levando mais riqueza às comunidades de catadores e permitindo que essa riqueza volte para a economia em forma de consumo… mas qual consumo? Inconsciente ou consciente?

Desde que comecei a trabalhar com o tema sustentabilidade (e garanto que tenho muito caminho a percorrer e aprender) tenho me deparado com a velha desculpa do “Investimento” e o “Retorno de longo prazo e só na imagem”. Tudo isso é muita miopia por parte de quem lidera as companhias e tem ainda essa visão, pois sustentabilidade só será sustentável se começar pelo “bolso” das companhias. Só assim terá a devida atenção por parte dos dirigentes e demais stakeholders da operação.

Mas não podemos continuar consumindo como se o mundo fosse acabar amanhã e nada sobraria para as próximas gerações, aliás, aquelas que estamos vendo por aí. Hoje no planeta há 1,9 bilhão de seres humanos com menos de 15 anos (maior agrupamento entre todos os outros), o que de um lado nos dá grande esperança no futuro, mas de outro nos deixa apreensivos se nada deixarmos para eles.

Afinal qual é o propósito da sua vida? O quê você veio fazer neste planeta? Porque ao longo de nossa vida consumimos recursos naturais e devolvemos cocô, xixi e lixo! Será que nossa passagem pela Terra representa esse papel “animal irracional” ou fomos dotados de um cérebro e acumulamos conhecimento através de nossa inteligência para contribuirmos com um mundo melhor?

O resultado da pesquisa da ICC aponta então para essa conclusão: o brasileiro é consciente quando dói no bolso e não na consciência! Mas talvez a crise tenha deixado seu legado positivo, um consumidor mais “consciente” – na verdade mais cauteloso – que tem medo de comprar sem precisar (apesar das inúmeras tentações do varejo) e, principalmente, devido aos juros escorchantes no Brasil, passou a ser muito mais consciente em se endividar, emprestar seu nome a parentes e a amigos e comprar sem saber se poderá pagar.

Mas nem tudo são notícias ruins. Sim, o brasileiro está aprendendo uma lição positiva que vai perdurar e se multiplicar. Dados da pesquisa ICC aponta as principais vantagens que os entrevistados declararam ao praticar o Consumo Consciente: 37,1% afirmam que economizar é fazer o dinheiro render mais, 21,6% se sentem satisfeitos por saber que estão fazendo algo positivo para o futuro das gerações, 16,7% tem a sensação do dever cumprido e que estão fazendo o que é correto para a sociedade, 10,4% acreditam que estas atitudes de Consumo Consciente contribuem para a melhoria nas condições sociais de uma forma geral.

Texto publicado originalmente no portal Mercado & Consumo.

 


O talentoso jornalista Nonato Reis é o mais novo colaborador do Blog do Robert Lobato.

Ao lado dos amigos Eden Júnior, Abdon Marinho e Flávio Braga, Nonato Reis também bridará os nossos leitores com as suas crônica inteligentes, intrigantes e, por que não, também picantes.

Nonato Reis escrevia para o Jornal Pequeno, mas os editores do matutino da Afonso Pena passaram a achar que o articulista estava muito “assanhado” e escrevendo muitas “sem-vergonhices”.

Bom, aqui no Blog do Robert Lobato o que vale é o talento da “pena” do colaborador. O leitor conservador cabe recusar-se a ler os textos dos autores, mas jamais deixará de publicar um artigo por razões de amarras da tal tradição judaico-cristã.

Nesse sentido, a partir de hoje o Blog do Robert Lobato contará com a colaboração deste grande cidadão do bem que é Nonato Reis, com artigos semanais, sempre aos domingos, com exceção deste que extraordinariamente será publicado nesta segunda-feira.

Fiquem com “A pintinha de sangue na calcinha”, por Nonato Reis:

Tem professora que a gente não esquece mesmo. Passam-se os anos e ela continua ali, dona de uma parte preciosa da nossa memória. Eu tinha dez anos, era um menino sob todos os aspectos, com o acréscimo de pertencer a uma comunidade rural, viver em meio à natureza, longe das novidades e da vida corrida dos centros urbanos. Já tivera algumas professoras, porém todas adeptas da velha palmatória como símbolo de rudeza e disciplina.

Quando cheguei no colégio Zilda Dias Guimarães, o famoso ZDG, cujas letras iniciais apareciam em alto relevo na cor azul marinho, estampadas na manga da camiseta branca, tudo era novidade. A começar pela própria aparência física da escola. Ao contrário de casebres de palha ou salões de fazenda do meio agreste, o ZDG era um prédio enorme, novinho em folha.

A construção formava um retângulo. Dentro havia uma quadra de esportes, devidamente sinalizada, com traves e tudo, e contornando a quadra um corredor dava acesso às salas de aula, num total de oito. Também havia salas de diretoria, secretaria, cantina e banheiros – um para cada sexo. Ali, na quadra, com a presença do governador da época, comemorou-se o sesquicentenário da Independência.

Gelei quando vi Lene adentrar a sala do quarto ano primário, vestida naquele seu sorriso acolhedor, fala mansa, educada, parecendo uma princesa. Ela deu três passos até a mesa, ali depositou alguns livros e a sua bolsa tiracolo, depois deu “bom dia!”. Era o primeiro dia de aula, e quis conhecer cada um dos seus novos alunos. “Você, como se chama?” “E você…” Chegou a minha vez e com voz trêmula respondi: “Raimundo Nonato Reis Mendonça”. “Ah, que nome bonito! Mas de agora em diante você será apenas Raimundo, pode ser?”

Eu odiada o meu prenome e o via como uma espécie de castigo contra a minha mãe, que antes de casar, prometera jamais dar o nome de Raimundo ou Raimunda para seus filhos. Queimou a língua duas vezes. A primogênita chama-se Raimunda de Fátima; e eu, terceiro filho, tive que carregar o resto da maldição. Porém, na voz de Lene meu nome ganhava uma sonoridade especial, como se apenas eu existisse no mundo.

Lene era uma professora diferente das demais que houvera tido. Novinha, parecia uma aluna mais velha, pele morena clara, olhos castanhos dourados, altura mediana, e aquela voz de veludo que me chegava aos ouvidos feito música. Eu queria ser grande aos olhos dela, alguém destacado, que ela visse como especial, e não um qualquer.Para isso eu só tinha um caminho: dedicar-me aos livros à exaustão, ser o melhor da turma em toda e qualquer disciplina.

Varava noites, os olhos grudados nos livros, o cheiro forte do querosene entrando pelas narinas, os olhos cansados de sono, e a minha mãe a brigar. “Menino, vem dormir. Desse jeito amanhã tu vás dormir na escola. Onde já se viu passar a noite em claro!”. No dia seguinte eu estava mais morto do que vivo, mas a cada elogio dela eu tomava uma injeção de ânimo. “Raimundo, nota 10! Parabéns!”. Os dez foram se multiplicando na caderneta e eu não admitia mais um nove sequer. Se tirava 9,9, eu fechava o tempo, perdia até a vontade de viver.“Raimundo, o que é isso? Sua nota é linda! Devia estar feliz, foi a maior de todas”, dizia ela tentando me confortar.

Os fins de semana, antes aguardados com tanta ansiedade para as peladas e banho de rio, passaram a ser um martírio. Sofria a dor da ausência dela no fundo da alma. Na sexta-feira à tarde, logo ao chegar em casa, eu já me sentia sem uma parte de mim. Era uma tristeza que doía fundo. Na comia, não bebia, não sentia vontade de fazer nada. Meus pais achavam que eu sofria de alguma doença. “Meu filho está perdendo peso, alguma coisa aconteceu com ele”. Para aumentar o meu drama, a voz de Agnaldo Timóteo chegava-me aos ouvidos a toda hora na música “O Relógio da Praça” (Meu amor está tão longe/E até já me esqueceu/O relógio lá da praça/Não se cansa de marcar).

Um dia cheguei na turma e encontrei um ambiente hostil. Havia muito falatório, os alunos cochichavam entre si, Lene não se encontrava na sala. Quis saber o que houvera. Ademar, que dividia a carteira comigo, falou-me baixinho. “Cara, foi o maior rolo! O Zequinha e o Júlio se deitaram no chão para ver a calcinha da professora”. Aquilo me ferveu o sangue. “Por que eles tentaram fazer essa loucura?” “A professora estava sentava com as pernas abertas, dava para ver a calcinha dela, que era branca, e uma pintinha de sangue ali rente ao triângulo”.

Meus olhos faiscaram. A minha vontade foi acertar logo as contas com os responsáveis por tamanho desaforo. Ademar me explicou que, denunciado pelas garotas do fundo da sala, os dois foram levados à presença da diretora e ela os suspendeu por sete dias. Eu passei dias estranho. Sentia uma raiva louca dentro de mim. Aquilo era o mesmo que blasfemar uma divindade. Eu tinha Lene como uma santa e não admitia um gesto sequer que a reduzisse à condição de mortal. A lembrança da pinta de sangue me dava arrepio, porque remetia à ideia de menstruação. Não podia ser. Com Lene não.

Ela percebeu a minha mudança. Recusara o lugar ao seu lado, que me destinara tão logo me tornei o primeiro da classe. Não falava mais com ela, não a acompanhava até a sua casa ao final das aulas, como fazia todos os dias. Sequer respondia as questões que ela me dirigia em sala de aula. “Raimundo, em que região do Brasil fica o Arroio Chuí?” “Eu nao sei”. “Como não, você sabe tudo!”. “Desaprendi”.

Até que um dia, depois da aula, chamou-me até a cantina e quis saber o que se passava comigo. “Raimundo, essa sua indiferença está me deixando mal. Parece que eu deixei de existir para ti. Pode me dizer o que aconteceu?” Eu não me fiz de rogado e puxei o assunto que me afogava a alma.

Ela ouviu em silêncio e depois falou naquela sua voz sonora. “Eu compreendo a sua revolta. Também fiquei muito mal com aquilo. Mas são coisas de criança. Eles nem sabiam ao certo o que estava fazendo”. “Mas você sabia!”, retruquei. “Eu sabia? Como pode dizer isso?” Por que ficou naquela posição, com as pernas afastadas? “Meu Deus, eu estava relaxada, passando um ditado, foi um momento de distração”.

Fiz questão de deixar claro a minha contrariedade. “Eu não gostei. Não admito que ninguém fale mal de você, nem que se aproxime com segundas intenções”. Ela então abriu aquele sorriso que me desarmava, acolheu-me num abraço forte e depois falou: “Raimundo, você é um menino lindo e está se deixando levar por ciúmes. Sei que um pouco mais adiante nem vai se lembrar de mim, mas quero que saiba o quanto gosto de você”. E então, me olhando nos olhos, brincou: “Você quer namorar comigo?”


Acontece logo mais, a partir das 17h, na galeria do Centro de Criatividade Odilo Costa, filho, um tributo em homenagem ao artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô.

O evento é organizado pelo cordelista Moizes Nobre, amigo e que por muito tempo foi parceiro de Gerô, e conta com a parceria do Centro de Criatividade odilo Costa, filho, Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Participação Popular, Sinproesemma, e conta ainda com o apoio dos deputados Zé Inácio e Bira do Pindaré.

Gerô foi brutalmente espancado até a morte por policiais militares na tarde do dia 22 de março de 2007. Era muito querido no meio artístico, popular e político, e chegou a gravar quatro CDs e diversos jingles de campanhas políticas e eleitorais.

Gerô, presente!

Confira a programação:

17h – Fala de boas vindas do diretor do Centro, senhor Laurindo Teixeira.

Abertura de exposição de objetos de Gerô (violão, figurinos, livros, livretos, CD etc.)

Performance de dança de um grupo de mulheres negras com uma musica de autoria de Gerô.

18hs- Bate-papo com Moizes Nobre sobre a vida e obra de Gerô

18h20 – Samba em homenagem a Gerô com Gigi Moreira

18h30 – Roda de conversa sobre direitos humanos, lei estadual de combate à tortura e igualdade racial com Francisco Gonçalves (secretário de Direitos Humanos, que na ocasião representará o governador); Gerson Pinheiro (secretário de igualdade Racial); professor Julio Pinheiro (vice-prefeito de São Luis); Luis Antonio Pedrosa (OAB-MA); deputado Zé Inácio (ex-presidente da Comissão de Direitos humanos da ALEMA), Silvio Bembem (doutorando em Politicas Publicas e ativista politico); professor Nonato Chocolate (ativista politico e militante do Movimento Negro) e Joberval Bertoldo (ex-vereador e ativista politico).

19h30 – Sarau em homenagem a Gerô com os artistas Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Sergio Habibe, Arlindo Carvalho, Cesar Teixeira, Rosa Reis, Fátima Passarinho, Zeca Barbosa, Luis Junior, Zé Maria Medeiros, poetas Moisés Abilio, Paulinho Nó Cego, Raimunda Frazão, Walbert Guimarães, Fernando Abreu, Tiburcio Bezerra, Moizes Nobre, entre outros.


Estive na bela, charmosa e histórica cidade de Caxias, palco da Balaiada, localizada ali pra bandas do Leste maranhense, na chamada Região do Cocais.

Fui a convite do senador Roberto Rocha e passamos dois dias na “Princesa do Sertão”. Aliás, sempre me chamou a atenção o fato desse epíteto de “Princesa do Sertão” já que a cidade, de fato, não é sertaneja.

Foi quando o amigo e blogueiro Ludwig Almeida explicou-me: “Foi na Igreja de São Benedito que, em 1858, o antístite [bispo] da Igreja Maranhense, Dom Manoel Joaquim da Silveira, denominou Caxias com o título de ‘Princesa do Sertão Maranhense’, embora tenha sido errado porque Caixas não fica no Sertão”. Grande abraço, amigo Lud, e valeu pela acolhida na controversa “Princesa do Sertão”. 🙂

Caxias está bem organizada, limpa, praças bem cuidadas, enfim, está cada vez mais bonita.

Claro que a beleza discreta, e até romântica, da cidade não é herança exclusiva de um só prefeito, mas de vários gestores. Há marcas saudáveis tanto da era dos Marinho quanto dos Coutinho, o que mostra o quão é saudável a alternância de poder onde as forças políticas divergentes concorrem entre si para ver quem faz mais e melhor pelo município. Ao final, é o povo que soberanamente faz o julgamento, como fez em 2016 quando resolveu, mais uma vez, mudar de grupo político elegendo o jovem Fábio Gentil, que, diga-se de passagem, mostra-se com muita vontade de trabalhar pelo município.

Tenho boas lembranças de Caxias dos tempos de movimento estudantil da Uema, principalmente quando da realização de um CEUEMA (Congresso de Estudantes da Uema) realizado no campus do Morro do Alecrim – de onde se tem uma vista panorâmica da cidade de tirar o fôlego de moradores e, claro, dos visitantes. E por falar em CEUEMA, tive a grata a satisfação de reencontrar com meu amigo e companheiro de velhas e históricas lutas, o “radical” – no sentido de ir á raiz do problema – o bravo Agostinho Neto, hoje o ilustre presidente regional da OAB em Caxias. Valeu, Agostinho!

A passagem pelas terras gonçalvinas me fez ficar ainda mais convicto de que, ao contrário do que pode parecer, a política pode unir o Maranhão e não dividi-lo como ocorre atualmente. Falo da Política com “P” maiúsculo, não aquela tacanha, pequena, rasteira…

Respeitadas as diferenças de cada grupo político da cidade, o que fica é certeza de que Caxias, por exemplo, é maior do que coragem e liderança de um Paulo Marinho; do que a experiência e força de um Humberto Coutinho; da cultura e inteligência de um Edson Vidigal e por aí vai. Transportando essas assertivas para o plano estadual, temos que o Maranhão é muito maior do que o Sarney, Flávio Dino, Roseana, Lobão, Roberto Rocha etc.

Em Caxias vi o nascer de uma geração de novos políticos na expressão tímida, mas ao mesmo tempo firme, do jovem Paulo Marinho Júnior, o Paulinho. Uma liderança promissora, de perfil carismático, excelente formação acadêmica, postura política qualificada, cujo pai, o ex-deputado e ex-prefeito Paulo Marinho definiu bem a personalidade do seu filho é: “Alguém que puxou todas as minhas qualidades e nenhum dos meus defeitos”.

Isso sem falar no prefeito Fábio Gente, no advogado Catulé Júnior e mesmo no ex-prefeito Leo Coutinho, lideranças de uma nova geração de políticos que aflora no Maranhão.

Enfim, o que fica da Caxias que eu vi, além de uma cidade muito bonita, de gente alegre, inteligente, acolhedora e da deliciosa galinha caipira com pirão de parida da Veneza, área pública de rara beleza, é a grandiosidade do povo maranhense sintetizada no semblante dos caxienses.

Fica também a certeza de como esse estado pode ser unido em torno não de projetos de poder simplesmente, mas de um projeto de vida para os cidadãos e cidadãs deste rico estado de povo empobrecido.

Valeu, Caxias!

Valeu, Maranhão!802

PS: Este post não ficaria completo se não fizesse a devida referência aos companheiros Mundico Teixeira e Ney Jefferson, pai e filho, bravos lutadores do Partido dos Trabalhadores em Caxias, com os quais tive a alegre satisfação de encontrá-los na cidade. Valeu!


Enquanto muitos municípios se despedem da maior festa popular do país, a cidade de São José de Ribamar renova o fôlego para mais uma edição do Lava Pratos 2017, que este ano chega a sua 71ª edição. O evento realizado no Parque Municipal do Folclore Therezinha Jansen, orla marítima, estima receber mais de 100 mil pessoas, neste sábado (04) e domingo (05).

De acordo com o prefeito ribamarense, Luis Fernando Silva (PSDB), que organiza o evento juntamente com uma comissão composta por representantes de todos os seguimentos, o Lava Pratos já se tornou um evento nacional e, portanto, atrai uma multidão. Para preparar a cidade, foi montado um grande esquema de segurança e de estrutura, para manter a segurança da população, foliões e visitantes.

“O carnaval tradicional foi concluído com tranquilidade e sem registros de violência durante os três dias em nossa cidade. Para o Lava Pratos, continuaremos com o plano de ação integrada envolvendo mais de 500 homens da Polícia Militar, inclusive com barreiras de segurança, nossa Guarda Municipal que vai atuar em toda a cidade, Corpo de Bombeiros em terra e no mar, além de segurança privada, profissionais da saúde, ambulâncias, tendas da saúde e campanhas educativas”, detalhou o gestor.

Programação – No sábado (04), o agito tem início às 21h, com os shows do grupo N’Gandaya; banda Da 1 Rollé; e banda Energia. No domingo (05), a programação tem início mais cedo, às 13h30, com Samba de Boa; Leiliane Frazão e Banda; Banda Regional Fenix; MC Afonso Twister; Bicho Terra, Pepê Júnior e Gargamel e Os Smurfes.

A programação completa do Lava Pratos 2017, está disponível no www.sjr.ma.gov.br/carnaval e nas redes sociais da Prefeitura, Facebook e Instagram.

Carnaval da Reconstrução – Durante os três dias oficiais de folia momesca, desfilaram cerca de 120 agremiações (blocos organizados, escolas de samba, blocos afro, bandas, artistas locais, dentre outros), pelos oito circuitos oficiais montados nas áreas da Sede e Vilas, Parque Vitória, Matinha, Mata Grande, Vila Sarney Filho, Turiúba, e Nova Terra. Todos os pontos tiveram a presença constante de homens da Polícia Militar, Guarda Municipal, Corpo de Bombeiros, além de segurança privada contratada para dar apoio nos espaços.

Nem mesmo a chuva inibiu a participação maciça do público em todas as noites de folia. O secretário municipal de turismo, cultura, esporte e lazer, SEMTUR, Edson Calixto, avaliou como surpreendente o prestígio dos foliões em todos os pontos montados para a folia.

“Tivemos a participação intensa de foliões e das famílias que puderam brincar com tranquilidade, paz e respeito”, avaliou o secretário destacando também o trabalho da limpeza pública que manteve a cidade limpa todos os dias apesar do grande fluxo de brincantes.

Na área da Saúde, foi montado um esquema para atendimento composto por tendas montadas e estruturadas com equipe de profissionais em todos os circuitos da folia, além do SAMU 192 e ainda o Hospital Municipal e o Centro de Saúde Honório Gomes, em alerta para atendimento médico. A mesma estrutura também estará disponível durante dos dias do Lava Pratos.

Funcionários da Vigilância Sanitária Municipal atuaram no disciplinamento do comércio informal, distribuição de material de higiene, venda de bebidas alcoólicas em garrafa, foi proibida nas proximidades dos palcos e áreas de concentração das agremiações.