FRASE DO DIA

Destruir Lula é roubar a voz dos pobres, só um povo infantil faria uma coisa dessa

(Domenico De Masi, sociólogo italiano)

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por Nonato Reis

Ter medo da morte é normal, até porque ela nos rouba o bem mais precioso e não há como escapar disso. Rindo ou chorando um belo dia ela vem e “adeus, corina!”. Medo da morte Zé de Constâncio tinha demais. Medo de sentir a espinha congelar e o peito dorir. Porém maior do que o medo era a certeza que o possuía: de que seria imortal, o único homem na face da Terra a vencer a morte, nome aliás que não se atrevia a pronunciar. A ela se referia por apelidos, os mais diversos: Lucrécia, Temida,

Malfazeja, Maldita, Inimiga, e por aí vai. Zé a via como uma mulher ardilosa de mil facetas, sempre disposta a pegar o infeliz numa encruzilhada ou num instante de distração. “Com essa senhora não tem vida fácil”. Para vencê-la era preciso cuidado, acima de tudo, “trazer os olhos sempre abertos”. Não por acaso mantinha as portas e as janelas da casa fechadas. “Lucrécia é como um ladrão, que vive a te espreitar. Uma hora você se descuida e ela te pega”.

Dizia fazendo o sinal da cruz.

Eu não sei que idade tinha Zé de Constâncio. Parecia tão velho quanto o tempo. Na face enrugada trazia as marcas da lida diária no cabo da enxada ou com as redes de pescar. E também de um provável acidente vascular cerebral, à época conhecido por “congestão”, que lhe reduziu os movimentos do lado esquerdo do corpo e provocou um defeito na voz. Para Zé, aquela foi a batalha mais difícil que travou contra a morte. “Eu a vi de pertinho, quase roçando o meu nariz, com aquele seu riso imundo de deboche”.

Foi ao meio-dia de uma quinta-feira de novembro. Acabara de almoçar, estendera a rede na sala e principiara a sesta sagrada de todas as tardes. De repente sentiu um baque surdo na porta e uma pontada do lado direito da cabeça. Pensou: “é ela, a maldita, a sem-piedade!”. Correu para ver se a porta estava devidamente fechada, mas as pernas falharam e ele rolou pelo chão, os olhos perdidos no nada, a boca torta, órfão da própria voz.

Uma semana se debatendo entre os braços de Lucrécia e os cuidados dos familiares, tomando infusões, aguardente alemão e o mais que lhe receitavam os entendidos no assunto, deu sinais de melhoras e um mês depois pôde enfim comemorar mais uma vitória contra a “maldita”.

Zé conhecia como ninguém as teias mórbidas de Lucrécia e procurava abortar na origem qualquer chance de oportunismo da “malfazeja”. Para ele, o ardil da “inimiga” era tamanho que ela foi capaz de se intrometer na própria oração consagrada a Nossa Senhora, “a Virgem Maria Mãe do Menino Deus”.

Por isso, ao fim da oração ao invés do “e agora e na hora da nossa morte, amém”, substituía o “nossa” pelo “tua”, o que dava uma ideia de exclusão, distanciamento.

Achava que, se dissesse “nossa morte”, no lugar de “tua morte”, faria o jogo de Lucrécia e aquilo podia ser interpretado por ela como um chamamento. “A bicha é igual serpente. Está sempre ali pronta para dar o bote”.

A velórios não comparecia, muito menos a enterros, pois sabia que daria de cara com “a temida”. Uma regra que jamais quebrou, nem mesmo quando a mãe bateu as botas.

Antes mesmo do desenlace, ao perceber que a velha caminharia para os braços da “nojenta”, arrumou as trouxas e se mudou para dentro do mato, onde passou a habitar uma gruta, de cuja existência só ele conhecia. Voltou para casa seis meses depois, já com o ar purificado dos sinais da “dita cuja”.

Porém das garras da morte ninguém se salva e Zé sabia disso. “Um dia ela morde o meu calcanhar e eu preciso estar preparado para vencer a batalha final”. Como isso seria possível, era o que todos se perguntavam. A morte, que já havia tentado de tudo ou quase tudo para encaminhar Zé para a “cidade de pés juntos”,decidiu mudar a estratégia.

Ao invés de sustos e barulhos chegou de mansinho, como quem não quer nada. Sequer abriu a porta: possou pelo buraco da fechadura, de ponta de pé adentrou o quarto, alojou-se no coração de Zé.

De cansaço ele dormiu o sono eterno, em plena manhã de sol. Na hora de vesti-lo para a morada derradeira, a irmã percebeu uma lágrima a escorrer lentamente do seu olho esquerdo para a ponta do nariz, onde se fixou. Não houve jeito de secá-la ou retirá-la dali. Sempre que a afastavam com um lenço, outra lágrima surgia, como se olho d’água fosse, e estacionava no mesmo lugar. Enterraram-no assim mesmo.

Na terça fase da lua subsequente, a novidade: no alto da sepultura nascera um pezinho de milho, que em pouco tempo cresceu e tornou-se um bonito exemplar da espécie. Ali permaneceu.

Esquecido do tempo e da própria morte.


Fundação Abrinq coloca as propostas do senador maranhense em agenda legislativa prioritária

O Senado Federal analisa o Projeto de Lei 217/2015, de autoria do senador Roberto Rocha (PSB-MA), que dobra o repasse de recursos para alimentação escolar em municípios em situação de extrema pobreza. A matéria vem sendo acompanhada de perto pela Fundação Abrinq, que lançou, esta semana, o seu Caderno Legislativo 2017. Segundo a entidade, a proposta do senador maranhense é uma das mais relevantes no tema em defesa da criança e do adolescente no Congresso Nacional.

O projeto, que já foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado, prevê duplicar os valores do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), conhecido como merenda escolar, para alunos de localidades de extrema pobreza. “Há muitas áreas rurais e municípios pobres, onde ainda tem registros de desnutrição infantil. Persistem situações onde a principal motivação de uma criança ir à escola é encontrar fonte de substância na merenda oferecida”, explicou o senador Roberto Rocha.

A medida beneficiará 470 municípios brasileiros, cerca de 100 deles localizados no Maranhão. São considerados municípios de extrema pobreza aqueles nos quais 30% ou mais das famílias neles residentes façam parte do cadastro dos programas Brasil sem Miséria ou Bolsa Família.

Embora a proposta do senador maranhense seja uma das mais destacadas, estudo apresentado pela Fundação Abrinq revela que apenas 12 entre 2.769 propostas dos congressistas relacionadas ao público entre 0 e 17 anos foram sancionadas pelo presidente da República em 2016. Outras 11 foram arquivadas e as restantes estão praticamente paralisadas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Em entrevista ao site Congresso em Foco, a diretora executiva da Abrinq, Heloísa Oliveira, disse que há pouco foco dos parlamentares nas prioridades relativas à questão. “São diversos problemas acerca da pauta legislativa, como lentidão na tramitação das propostas, inadequação formal dos projetos, vícios de inconstitucionalidade e outras situações de confronto com a lei. Tudo isso dificulta a aprovação dessas propostas”, disse.

Na contramão da maioria dos parlamentares, o senador Roberto Rocha tem outras propostas especificamente para crianças e adolescentes, como o Projeto de Lei 353/2016 que institui o Programa de Passe Livre Estudantil e cria o Fundo Federal do Passe Livre Estudantil. A proposta também está no rol de monitoramento da Fundação Abrinq.

Para o congressista maranhense, iniciativas para criação de legislações voltadas para crianças e adolescentes são uma forma de assegurar desde cedo os direitos delas e ajudá-las a criar oportunidades na vida. “O nosso projeto procura desonerar as famílias dos encargos de deslocamento de seus membros, sobretudo nos casos das crianças e dos jovens, assegurando-lhes as condições mínimas de circulação na cidade onde moram e estudam, algo mais importante ainda nos casos dos estudantes que habitam nossas periferias urbanas, cujos deslocamentos são mais onerosos para o orçamento familiar”, argumentou Roberto Rocha.


por Nonato Reis

O cérebro humano se baseia em signos para armazenar e selecionar eventos. Uma mesma palavra-chave pode provocar diferentes reações entre pessoas, dependendo das situações e das circunstâncias que cada uma viveu, envolvendo aquele signo. Que critérios a mente utiliza para memorizar ou descartar é um enigma que a ciência até hoje não conseguiu decifrar. Cigarro, bebida e bolinha de gude, por exemplo, me fazem lembrar de histórias engraçadas, algumas exóticas até.

Criança, adorava brincar com bolinhas de gude. Achava-as lindas naquele vidro transparente e de manhas diversas em contraste. Tinha coleção delas, de todos os tamanhos e cores. Uma prima levada da breca amava-as de tal forma que achou que podia engoli-las como se fosse pitomba.

Por sorte a bolinha passou no esôfago e foi parar nos intestinos dela, mas teve que tomar laxante para se ver livre da incômoda penetra. Até hoje me lembro do ruído da esfera de vidro batendo no fundo do penico, para o alívio de todos.

Comecei a fumar ainda menino, de tanto ver o meu pai às voltas com cigarros. Ele era um viciado contumaz, que acordava às 4 da manhã e já preparava o canudo de fumo e abade. Além disso em nossa casa havia uma bodega que comercializava o produto. Eu dormia e acordava inalando fumaça de cigarro, isso numa época em que fumar significava charme, beleza, elegância. Nos próprios filmes e novelas era comum ver os galãs dando grossas baforadas.

Eu fumava escondido, porque se descoberto era surra na certa, com talos de goiaba ou tamarindo que, ao contato com a pele, provocavam marcas vermelhas e até queimaduras. A certa altura eu já era tão viciado que, não tendo dinheiro para comprar cigarros, apanhava as tinchas (restos de cigarros usados) e fumava-as.

Em férias em São Luís, na casa dos avós, fui até o comércio mais próximo e comprei dois “Gaivotas”, um cigarro horroroso, porém o mais barato, preferido do meu avô.

Achando que ninguém me conhecia ali, fui para o meio da rua e, todo compenetrado, ao  primeiro casal que passou por mim fumando pedi ao cidadão que me fizesse o obséquio de acender o cigarro, ao que a mulher respondeu: “Nonato, tu já fumas"!? Vou dizer para a tua tia”. Levei um duro sermão e fui ameaçado de ter as férias na cidade interrompidas.

Quem se lembra de Jurubeba Indiana? Era uma bebida em forma de vinho, que tinha uma coloração escura e o sabor adocicado. Um dia eu e Zeca, meu primo, entornamos quatro garrafas da beberagem e vimos o mundo girar. Depois ele tirou dois cigarros de palha do bolso, me ofereceu um e depois falou: “vamos fazer a cabeça!”. Eu disse “o que é isso?” Ele explicou: “ é assim (…)". Então acendeu o cigarro, deu uma longa tragada e depois, sem expelir a fumaça, tapou o nariz com uma das mãos e com a outra começou a dar batitinhas na cabeça.

Não demorou e Zeca, os olhos vermelhos feito brasa e como se pisasse em nuvens de algodão, começou a delirar. Disse que possuía um palácio todo iluminado na Mutuca, canal que no inverno ligava o Rio Maracu aos campos inundados do Tamataí, e dentro do palácio uma princesa que emergia das águas.

Depois foi até a Praia Grande, comprou duas dúzias de Tapiacas (a popular Branquinha), voltou para casa e pediu à mãe que preparasse os peixes imediatamente, pois fora acometido de uma fome louca.

A mulher começou a abrir os peixes, Zeca entendeu que não daria tempo de esperar cozinhá-los. Pegou uma cuia com farinha de mandioca e se postou a um plano inferior ao jirau, onde a mãe preparava os peixes. As vísceras que ela arremessava do alto ele as apanhava no ar com a boca, igual cachorro, e as comia com farinha.

O velho Marcondes, pai de Zeca, vendo aquele espetáculo grotesco, ralhou: “esse patife fumou maconha!”. Tirou o cinturão da calça e acertou duas lapadas na costa de Zeca, que fugiu em disparada, desaparecendo no matagal que cercava a casa.

No final do dia Zeca reapareceu, triste e debilitado. A mãe já aflita com o seu sumiço abraçou-lhe aos prantos. “Meu filho, o que aconteceu contigo? Está pálido e magrinho.

Parece um aracu desovado”. E Zeca, o olhar espetado no chão: “Desovado, não, que eu não sou peixe. Mas sem os bofes, sim, que eu já botei tudo pra fora”.


 Juiz diz que sede do instituto pode ter sido local de encontro para a “ilícitos criminais”

via R7

Justiça Federal do Distrito Federal determinou nesta terça-feira (9) a suspensão das atividades do Instituto Lula em decisão tomada no âmbito da ação penal em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato.

Em sua decisão, o juiz substituto da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, Ricardo Augusto Soares Leite, disse que, pelo teor do depoimento dado por Lula à Justiça, verificou que a sede do instituto pode ter sido “instrumento ou pelo menos local de encontro para a perpretação de vários ilícitos criminais”.

Procurada, a assessoria de imprensa do Instituto Lula disse que a entidade ainda não foi notificada oficialmente da decisão, datada da última sexta-feira, mas divulgada nesta terça.

“Ele próprio [Lula] mencionou que chamava pessoas para conversar no referido instituto e sobre finalidades diversas do escopo da entidade, alcunhando-o de ‘Posto Ipiranga’ diante de inúmeros assuntos ali tratados, sem qualquer agendamento de conversas ou transparência de suas atividades”, escreveu o juiz que assina a suspensão do instituto.

Manifestantes fazem a primeira caminhada por Lula em Curitiba

“Não se sabe o teor do que ali foi tratado, mas, por depoimentos testemunhais…, bem como o de várias investigações em seu desfavor, há veementes indícios de delitos criminais (incluindo o descrito nesta denúncia) que podem ter sido iniciados ou instigados naquele local”, acrescentou.

“Como o próprio acusado mencionou que no local se discutia vários assuntos e há vários depoimentos que imputam pelo menos a instigação de desvios de comportamento que violam a lei penal, a prudência e a cautela recomendam a paralisação de suas atividades”, disse o juiz, acrescentando que Lula conversou na sede do instituto com o então senador Delcídio do Amaral, também réu na mesma ação penal sob acusação de obstrução da Justiça.

A decisão de suspender as atividades do Instituto Lula acontece na véspera do depoimento do ex-presidente ao juiz federal da 13ª Vara de Curitiba, Sérgio Moro, em outra ação penal em que é réu, acusado de ter recebido um apartamento tríplex no Guarujá, litoral de São Paulo, como vantagem indevida paga pela empreiteira OAS.

Lula x Justiça Federal

O ex-presidente Lula é réu em cinco processos criminais na Justiça Federal, três deles no âmbito da Lava Jato, uma da Janus e outra na Zelotes.

Na Lava Jato, Lula se tornou réu pela primeira vez em julho de 2016, por supostamente tentar obstruir a Justiça ao comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró. A denúncia foi aceita pelo juiz federal Ricardo Augusto Leite, da Justiça Federal de Brasília.

Depois, em setembro de 2016, Lula se tornou réu por corrupção e lavagem de dinheiro ter recebido R$ 3,7 milhões em troca da facilitação para a OAS fechar três contratos com a Petrobras entre 2006 e 2012. Tais contratos, sustenta o MPF, geraram R$ 87 milhões em dinheiro desviado da petroleira. Essa ação corre em Curitiba, com o juiz Sérgio Moro.

A terceira vez de Lula como réu foi em outubro do ano passado, na Operação Janus, por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e organização criminosa. A investigação se foca em um suposto esquema de fraudes em contratos do BNDES para obras da Odebrecht em Angola. A ação corre em Brasília, sob responsabilidade do juiz Vallisney de Souza Oliveira.

Em dezembro de 2016, na Zelotes, Lula se tornou réu por tráfico de influência, organização criminosa e lavagem de dinheiro por supostamente ter atuado na prorrogação de incentivos fiscais a montadoras de veículos e na compra dos caças Gripen, da sueca Saab, por US$ 5,4 bilhões. Em troca, o filho mais novo de Lula, Luís Claudio Lula da Silva, teria embolsado R$ 2,5 milhões. Essa ação corre na Justiça Federal de Brasília e tem o juiz Vallisney de Souza Oliveira.

Lula se tornou réu pela quinta vez também em dezembro, desta vez na Lava Jato e, portanto, sob a responsabilidade de Moro. A suspeita é de corrupção e lavagem de dinheiro no caso do sítio de Atibaia (SP). O local foi reformado pela OAS e a Odebrecht em troca, novamente, de benefícios para as empreiteiras.


Via Fãs da Psicanálise

A família é nosso primeiro meio social, é onde construímos e nutrimos nossas primeiras relações e também onde iniciamos nosso desenvolvimento do Eu. Os vínculos costumam se desenvolver de forma intensa, por vezes nos tornando cuidadores e defensores de nossa família.

Acontece que muitas vezes esses laços se constituem de forma a não estabelecer limites a essas relações, tornando-as disfuncionais.

“Uma família disfuncional é aquela que responde as exigências internas e externas de mudança, padronizando seu funcionamento. Relaciona-se sempre da mesma maneira, de forma rígida não permitindo possibilidades de alternativa. Podemos dizer que ocorre um bloqueio no processo de comunicação familiar.” (Revista Boa Saúde)

Em muitos casos um familiar responsabiliza-se por resoluções de problemas e conflitos que não deveriam ser de sua preocupação.

Veja alguns que estão recentes em minha mente.

1. Filho que assumiu a posição de ‘chefe da casa’ após separação conturbada dos pais. Além de cuidar de si e de suas questões ‘adolescentes’, o filho sente-se na obrigação de cuidar da mãe e educar o irmão mais novo;

2. Filho de pais que vivem em meio a separações e ameaças de divórcio. O filho vira mecanismo de reconciliação/separação do casal, sendo peça fundamental para que um ciclo briga-separa-volta se mantenha a todo vapor;

3. Filha mais velha e adulta sente-se responsável por dar suporte a sua mãe (que criou a filha parte da infância sozinha), seja financeira ou emocionalmente. Tornando-se refém dos problemas da mãe, que são normalmente resolvidos pela filha ou não resolvidos para se manter esse tipo de relação;

4. Irmã que sente-se responsável por cuidar dos irmãos e já na fase adulta continua a resolver os conflitos e arcar com despesas financeiras dos irmãos;

5. Mãe que, apesar dos filhos já serem adultos e estarem casados, sente-se responsável por conduzir a vida dos filhos e assumir despesas e responsabilidades deles;

Ao expor os exemplos acima não me refiro a situações isoladas ou casos específicos. Me refiro a ciclos repetitivos que adoecem as relações e sobrepõem responsabilidades individuais, transferindo-as ao outro.

Em casos como os já citados todos têm prejuízos em suas vidas. Uma pessoa sobrecarrega-se, outra não amadurece, mantendo uma relação imatura, sem espaço para desenvolvimento com intuito de melhora.

Para alguns pode ser visto como prova de amor, mas não. Amor baseia-se em troca, respeito mútuo e limites. Estipular limites sim é uma prova de amor, amor ao outro e a si mesmo.

Normalmente quem se encontra neste tipo de situação enfrenta dificuldade em romper com o ciclo vicioso que retroalimenta, no entanto, é extremamente necessário que o indivíduo entenda o papel que vêm exercendo e o que o motiva a manter-se nessa posição (normalmente há algum ganho ou enrijecimento por um ganho do passado).

A consciência do funcionamento familiar já é de grande valia já que muitas pessoas vivenciam essas situações sem nem ao menos perceber que algo está disfuncional, mesmo em casos em que haja sofrimento manifesto.

Em alguns casos uma conversa com alguém fora da família, como um amigo, poderá alertar e alterar o status da família. Outras vezes o processo terapêutico se faz necessário.

O processo terapêutico individual por si só já provocará desdobramentos no lidar deste individuo com seus familiares.

Agora se o processo terapêutico for familiar, ou seja, todos os membros da família participarem, o processo poderá ser muito mais rápido, pois os conflitos referentes ao envolvimento e mecanismo familiar serão resolvidos por todos juntos, além de propiciar que todos entendam seu papel no funcionamento da família, possibilitando, assim, a escolha de permanecer retroalimentando os laços disfuncionais ou reescrevendo novas formas de organização e arranjo familiar.


O objetivo é fazer com que usuários percebam a importância de se desconectarem do mundo virtual e aproveitar mais o mundo fora da tela

Redação, Administradores.com

Uma ação desenvolvida pela agência Makers Society está alertando clientes sobre lugares que não têm conexão com a internet. Mas, calma, tudo é por uma boa causa.

O objetivo é fazer com que usuários percebam a importância de se desconectarem do mundo virtual e aproveitar mais o real, abrindo mão de smartphones e descobrindo sensações que alguns lugares podem transmitir “na prática”. As placas foram fixadas em lugares turísticos e com paisagens paradisíacas. Se você é um dos que passam 100% do tempo conectados, vale prestar atenção no ideal da campanha e aproveitar mais o mundo fora da tela.

Abaixo você confere um vídeo produzido pela agência sobre a campanha:


O cantor e compositor Belchior (1946-2017) – Foto: Divulgação.

Via Blog do Arcanjo

“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, nós ainda somos os
mesmos e vivemos como nossos pais”. O verso cortante que encerra “Como Nossos Pais”, que Elis Regina interpretou de forma definitiva no disco e no show “Falso Brilhante”, de 1976, marcou a carreira do compositor cearense Belchior. E, talvez, este verso seja um bom ponto de partida para começar a tentar compreendê­lo.

A triste notícia neste frio domingo da morte de Belchior, aos 70 anos, sem possibilidade de despedida prévia, nos faz constatar o óbvio: seu maior diálogo conosco é sua potente obra, que fala diretamente ao coração de quem sabe entender aquela melancolia que habitava o coração do artista.

Belchior bradou em suas músicas verdades desconcertantes, filosofou sobre a simplicidade da vida, rejeitou o sistema hipócrita, disse não ao jogo midiático — tantas vezes cruel com o artista–, e preferiu, ao fim, se isolar da convivência social e dos holofotes, nos quais jamais acreditou. Belchior escolheu ser “apenas um rapaz latino­americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes, vindo do interior”. “Teu infinito sou eu”, definiu em “Paralelas”.

Quando “Como Nossos Pais” estourou, Belchior já vivia no Rio havia uma década e sua carreira de cantor não parecia decolar. A canção, com uma autocrítica impiedosa da geração que revolucionou os anos 1960 e depois perdeu todas as utopias, foi oferecida por ele mesmo a Elis Regina, que o recebeu em sua casa.

Belchior cantou para ela aquela que seria uma das letras mais fortes já escritas na Música Popular Brasileira. Os olhos de Elis brilharam. Sagaz, sabia que estava diante de diamante bruto, que apenas precisava ser lapidado por sua voz e interpretação ímpar para tornar­se o maior sucesso de sua carreira. Tanto que resolveu abrir o disco e o show
“Falso Brilhante” com a música, tornando­a imortal.

O êxito abriu as portas da MPB para Belchior, que conheceu o sucesso popular no final
da década de 1970 e começo da década de 1980. Mas, aos poucos, foi se decepcionando com as artimanhas de uma carreira artística, que não resistiram a seu olhar filosófico implacável. Decidiu sair de cena e se isolar do mundo.

Ainda em “Como Nossos Pais”, o compositor escancara sua decepção com os homens e
seus discursos utópicos que não se sustentam diante de suas atitudes: “E hoje eu sei
que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus, contando o vil metal”. Ou ainda: “Acreditou no sonho da cidade grande e enfim
se mandou um dia”, verso de “Notícia de Terra Civilizada”.

Apesar de companheira da tristeza e da decepção, a obra de Belchior também mostra
que ele acreditou no amor, “porque o amor é uma coisa mais profunda que uma transa
sensual”, como definiu em “Divina Comédia Humana”. Porque “amar e mudar as coisas
me interessa mais”, como encerra “Alucinação”.

A despedida de Belchior, que morreu longe de todos nós por escolha própria, nesta que é
sua última performance artística, só comprova que ele foi um artista genial e coerente do
início ao fim, que só queria ser um homem normal, que jamais acreditou no endeusamento de artistas. “Eu sou como você que me ouve agora”, explicou, didaticamente, em “Fotografia 3×4”. A verdade crua deste homem profundo já faz uma falta gigante.


por Nonato Reis

Mais do que romper a quietude da noite e ecoar mata adentro, a voz invadiu os ouvidos do pescador, tomou-lhe o cérebro de assalto, percorreu cada centímetro do seu corpo provocando ondas de suor e frio. Coriolano não era homem de se deixar intimidar com as peripécias da floresta. Já havia enfrentado situações inusitadas, como a de um albino que emergiu das águas, embarcou na sua canoa e tentou naufragá-la. “Deixe de ser ordinário. Volte pras suas trevas e me dê sossego que estou buscando o sustento dos meus filhos”, repeliu.

Baixo, atarracado, olhar penetrante, Coriolano conquistara o respeito da comunidade pela coragem e até rudeza com que enfrentava vivos e mortos. Jamais sucumbira ao peso de um desafio. Certa vez durante os festejos da padroeira do lugar, Santa Rita de Cássia, um pistoleiro de renome cruzou o seu caminho por tabela. Havia agarrado uma garota de 12 anos, filha do ‘cumpade’ Mané Onça, e arrastado para o mato diante do olhar patético de todos. O pescador desembainhou o facão americano e sumiu entre as árvores. Ao voltar trazia a menina sã e salva para os braços da família. Na mão esquerda exibia dois testículos ensangüentados.

Mas era no enfrentamento do sobrenatural que a fama de Coriolano ganhava força. Jamais duvidou da existência das coisas do além. “Defunto que vorta não merece respeito nem dó. É coisa de gente vadia, que num tem o que fazer lá em cima e vem brincar cum a gente”, respondia a cada estória que ouvia. E elas corriam soltas na fazenda do coronel Ponciano. A mais espetacular de todas era a de um gritador que surgia no meio da madrugada, infernizando os pescadores e tirando o sono das pessoas.

Até mesmo o coronel já havia passado pelo constrangimento de abandonar a pescaria. “Era noite de inverno. Eu e o Feliciano já havíamos pegado quase três dúzias de bagrinho. Foi quando o berro troou lá pras banda do Muricituba. Uma coisa medonha, descomunal. Nem tive tempo de perguntar ao cumpadre o que era aquilo. Outro berro surgiu desta vez mais perto. E mais outro…e outro mais. Arrancamos a canoa do pesqueiro e remamos feito loucos. Quanto chegamos em casa e fechamos as portas, a coisa achegou-se ao pé do girau e gritou de novo. Até o sobrado rangeu”.

Coriolano ouvia aqueles relatos em silêncio. No final arrancava uma lasca de fumo de rolo, colocava-a na boca, dava uma cusparada e comentava. “Nunca ouvi esses berros. Mas quero que esse gritador me apareça. Tenho contas a acertar cum ele”. O coronel assustava-se com a ousadia do amigo. “Homem, num diga besteira. Sei da sua coragem e bravura. Mas esse grito não é da parte de Deus. Fique quieto e reze pra essa coisa num pegar você”. O pescador tirava outro pedaço de fumo, mascava e revidava. “Pois que venha. E que seja só eu e ele”.

Uma brisa suave penetrou o pesqueiro e tocou-lhe o rosto gelado. Como arqueiro que se prepara para o combate, Coriolano tirou o facão da cintura, colocou-o sobre o banco mais próximo e içou a canoa para a margem oposta do rio. A voz ressurgiu, límpida, medonha: “êêêê Coriolano…é hoooooje!”. Num salto felino pulou em terra firme de arma em punho. O berro ecoou mais perto na boca do rio: “é hoooooooje”.

Quis voltar para casa, as pernas estancaram. Tentou pedir socorro, a língua endureceu. Uma rajada de vento o arrastou como folha seca para dentro de um casebre à beira do rio… e o grito estrondoso pareceu rasgar a terra, explodir a choupana: “é hoooooooooje!!!!”.
Petrificado viu a criatura diante de si. Quase três metros de altura. Negro como a noite.

Cabelos afogueados, longos, tocando os calcanhares. Dos olhos, nariz e boca saiam faíscas avermelhadas. “Vim acertar as contas contigo. Não me chamou? Aqui estou. Levanta!”. Descobriu-se patético, imóvel, mudo. De repente o tempo parou. Os pensamento cessaram. Tudo escureceu. Ao abrir os olhos, na manhã seguinte, o pescador notou no fundo da calça algo pastoso, fétido. Passou a mão. Apurou o olfato. Estava perdido.


O relacionamento do outro é mais feliz que o seu. O trabalho, mais recompensador. Comparações podem fazer mal, mas existem maneiras de driblar esse sentimento danoso para a nossa felicidade

ma das características da inveja é voltar nosso olhar para as outras pessoas focando em coisas que queremos ter | Crédito: Vida Simples Digital

por Diogo Antonio Rodriguez, via Vida Simples

Existe um provérbio muito popular por aqui e também em países que falam a língua inglesa que diz o seguinte: “A grama do vizinho é sempre mais verde”. A frase serviu como inspiração para essa capa de vida simples. O provérbio foi também, há alguns anos, inspiração – e objeto de estudo – do psicólogo americano James R. Pomerantz, que resolveu checar, por meio de vários métodos, como percepção ótica e psicologia, se a frase é, de fato, verdadeira.

As conclusões de James Pomerantz são curiosas, para dizer o mínimo. Levando em conta o ângulo que uma pessoa forma em relação à própria grama e à do vizinho quando olha, ele deu um jeito de explicar se há realmente uma grama mais verde do outro lado da cerca. Qual foi a conclusão do estudioso? Vamos deixar isso para mais tarde, para o fim do texto. E continuo com outra pergunta: Realmente importa saber se as pequenas folhas têm coloração mais intensa aqui ou acolá? E se olhássemos para esse dito popular procurando entender outras coisas a seu respeito, como, por exemplo, prestar atenção ao que ele diz sobre nós?

Sim, inveja

Acharmos que a grama do vizinho é mais verde do que a nossa é algo que pode ser traduzido em um termo mais claro: inveja. Sim, olhar para algo que pertence a outra pessoa e nos sentirmos mal porque ela tem algo, acreditamos nós, melhor do que o que temos. Ou que não temos. “A definição budista sobre a inveja é que ela é uma sensação desagradável que a gente tem quando observa pessoas experimentando prazer, virtude ou boa sorte”, diz o monge Gen Kelsang Tsultrim, professor residente do Centro de Meditação Kadampa Brasil.

Portanto, uma das características da inveja é voltar nosso olhar para as outras pessoas focando em coisas e características delas que gostaríamos de ter. Mas algo na definição do monge Tsultrim chama a atenção. Se inveja é sentir desconforto quando outros sentem prazer ou boa sorte, o que isso diz sobre nós? A grama do vizinho é mesmo mais verde? E por que nos importamos tanto com esse tipo de coisa?

Segundo o rabino Nilton Bonder, em seu livro A Cabala da Inveja (editora Rocco), a inveja não só nos deixa incomodados com as vantagens que alguém recebe, como também nos faz criar “enormes estruturas de injustiça em nossas mentes”. Além de nos sentirmos mal com o sucesso do outro, criamos uma explicação do porquê disso ter acontecido com ele e não conosco. Deduzimos, inconscientemente, que éramos nós os verdadeiros merecedores de tais benesses. Nos sentimos deixados de lado, esquecidos pelo Universo. “O invejoso se sente incompreendido, ele acha que o mundo lhe deve alguma coisa”, explica o psicólogo e escritor Alexandre Bez, autor de Inveja – O Inimigo Oculto (Juruá Editora). Assim, começamos a alimentar uma raiva direcionada a quem conseguiu algo que queríamos ter. Nasce uma inveja.

Justo ou injusto

Pronto, a inveja está ali instalada, mesmo que a gente ainda não tenha se dado conta disso. E ficamos matutando, tentando encontrar uma explicação para aquele incômodo. A primeira reação é negar esse sentimento. E construir uma justificativa mais ou mesmo assim: “não é inveja, mas eu queria tanto aquela (complete aqui com qualquer coisa boa). Lutei muito por isso, sou aplicado, me esforço, e justo ele/ela foi conseguir? Realmente não é justo”.

Cair nesse raciocínio não custa muito. O perigoso disso é que, a partir daí, pode-se justificar muitas coisas danosas para nós e os outros. Afinal, se estamos sendo injustiçados, temos de nos defender, não é? Mas e se a injustiça for falsa? E se o Universo não estiver em dívida com a gente? O monge Gen Tsultrim explica: “Parece que a inveja é causada de fora para dentro: alguém me fez sentir raiva, alguém me fez sentir inveja”. Tal percepção é, no entanto, enganosa, observa ele. “Na verdade, é um movimento essencialmente interno e da pessoa que está sentindo, não é de fora”, completa Tsultrim.

O psiquiatra e psicoterapeuta José Toufic Thomé, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, destrincha esse percurso interno. “Tenho dois caminhos: ou ataco meu objeto de desejo, desqualificando, desvalorizando, ou eu me sinto destruído por aquilo, me consumo na minha inveja. É como aquela expressão popular `comer o próprio fígado”, diz.

Motivos para invejar não faltam. Três tipos de coisas, aponta o monge Gen Tsultrim, são combustíveis para esse sentimento: posses, qualidades e o conhecimento. E o que dizer dos dias de hoje, quando todos querem expor o que há de melhor em suas vidas? As redes sociais, tão pródigas em nos conectar e manter informados, são, dessa forma, um terreno bastante fértil para a semente da inveja.

Um estudo de duas universidades alemãs – Tur e a Técnica de Darmstadm – mostra o porquê de o Facebook não querer incluir um botão “descurtir” em sua plataforma. Seiscentas pessoas foram entrevistadas e um terço delas (33%) disseram que se sentem inferiores depois de olharem o perfil de amigos ou colegas. O que mais incomodou, segundo a pesquisa, foram fotos de férias, de atividades sociais e ficar sabendo de conquistas e do sucesso dos outros. De acordo com o artigo publicado pelos pesquisadores, “a disseminação e a onipresença da inveja nas redes sociais enfraquecem a satisfação dos usuários em relação a suas vidas”.

Faz sentido, já que a vida dos “conhecidos”, até pouco tempo atrás, não era tão acessível assim. Agora, basta abrir uma rede social para ficar sabendo de tudo o que os outros querem divulgar: novos empregos, viagens, relacionamentos. O tempo todo temos um lembrete de como os outros estão, e olhamos para as nossas vidas e pensamos se não poderíamos estar melhor.

Comparações

A inveja é um sentimento humano tão antigo que está no Velho Testamento. Um dos exemplos mais famosos é o de Caim, que matou seu irmão Abel. Segundo conta o texto do livro Gênesis, Caim ficou furioso porque, quando ambos os irmãos fizeram oferendas a Deus, apenas a de Abel foi reconhecida. Essa sede por recompensas pode não ser nova, mas as transformações que o mundo vem sofrendo desde o século 16 têm contribuído para que sintamos cada vez mais necessidade de nos comparar aos outros – e acabamos sofrendo mais por isso.

Mas, afinal, por que nos comparamos tanto? Comparar é um ato que pressupõe haver algo de similar entre duas coisas. Por exemplo: Podemos ir a dois supermercados diferentes para saber quanto cada um cobra pelo quilo do tomate. O preço pode ser diferente, mas o tomate é, essencialmente, o mesmo. Não somos tomates, claro, mas esse ato de olhar para o outro e seu “preço” tem a mesma lógica: somos basicamente iguais àquela pessoa. O que nos diferencia, então, é a “etiqueta” colada em nós.

Para entender melhor o porquê de nos compararmos, temos de entender que nem sempre as pessoas se consideravam iguais. Na Antiguidade, por exemplo, até antes da época em que a Bíblia foi escrita, a noção de igualdade era diferente da que temos hoje. O filósofo suíço Alain de Botton mostra que, na Grécia, a desigualdade entre as pessoas era uma coisa natural.

Em seu livro Status Anxiety (em tradução livre, Ansiedade por status), de Botton relata que o filósofo Aristóteles (384 – 322 a.C.) via a escravidão como algo normal. “Só no meio do século 17 é que o pensamento político começou a contemplar o igualitarismo”, escreve. Até então, o mundo era um lugar dominado por monarquias e aristocracias. Quando a ideia da democracia começou a ficar popular pela Europa e América, a noção sobre as pessoas mudou junto. Antes, pensava-se que as desigualdades entre as pessoas eram naturais e até justificadas pela religião. Com o fim desses regimes políticos, a ideologia passou a ser de oportunidade igual para todos, já que todos seriam essencialmente iguais. “Nas democracias, a atmosfera da imprensa e opinião pública incessantemente sugeria aos servos que eles poderiam alcançar os cumes da sociedade. E que poderiam se tornar donos de indústrias, juízes, cientistas ou presidentes”, observa o filósofo. Teoricamente, a partir do momento em que a democracia se tornou o ideal da sociedade ocidental, qualquer um poderia ser o que quisesse. Só dependeria do próprio esforço.

Há mais liberdade e, ao mesmo tempo, menos referências de como devemos viver. O rabino Nilton Bonder escreve que “quando instituições e ideologias enfraquecem, não temos em que investir nossas vidas, a não ser no crescimento pessoal”. “Se por um lado este é um movimento extremamente enriquecedor para a humanidade, por outro pode tornar-se um grande retrocesso, pois não é difícil encontrarmos verdadeiras multidões que compreendem erroneamente o investimento pessoal como sendo um verdadeiro bem. Desejam `ter¿ crescimento, em vez de vivê-lo”, afirma Bonder. Alain de Botton concorda com a ideia: “Só nos consideraremos afortunados quando tivermos o mesmo que, ou um pouco mais que, as pessoas com quem crescemos, trabalhamos, somos amigos e nos identificamos na área pública”.

Uma busca incessante por esse sucesso entre nossos iguais nos leva a um ressentimento específico quando a inveja desfere sua picada. Vivendo entre iguais e nos comparando incessantemente, vamos nos sentir mal quando olharmos para aqueles que estão mais próximos, pessoas com quem podemos nos comparar.

A neurociência também explica

Em um estudo publicado pela revista Nature, o Instituto Nacional de Ciências Radiológicas do Japão identificou no cérebro humano a manifestação da inveja. Usando ressonância magnética, verificaram que a sensação provocada é interpretada por nós de maneira similar a uma dor física. Além disso, notaram que isso só aconteceu quando os 90 voluntários se compararam com pessoas similares a eles, que tinham recebido algum benefício material ou de status.

Se invejar é algo, digamos, natural, como não deixar que nossos desejos individuais se transformem em um vetor de negatividade apontado para aqueles que estão recebendo algo bom? Em primeiro lugar, é preciso ter consciência. “O melhor é reconhecer que estou invejando e aí tentar aceitar esse sentimento: ter condição de conviver com isso sem me atacar ou atacar o outro”, diz o psiquiatra e psicoterapeuta José Toufic Thomé. Claro que isso é difícil, mas não devemos fugir e, sim, encarar nossos sentimentos, por mais obscuros que sejam.

“Apesar de a inveja ser real, ela não representa necessariamente que desejamos mal à pessoa com quem tivemos dificuldade de compartilhar a alegria”, afirma Nilton Bonder. E o segredo é simples. “O oposto disso é o regozijo”, ensina o monge Gen Tsultrim. “É uma prática muito encorajada no budismo. É você ficar feliz quando alguém desfruta prazeres.” Em ídiche, relata Bonder em seu livro, existe uma palavra para descrever essa atitude: farinem, que significa “compartilhar prazer”. Compartilhar a felicidade do outro é deixar de lado nosso egoísmo e considerar o ponto de vista de quem tem o que comemorar. Em vez de lamentarmos o fato de não sermos agraciados pela mesma facilidade, melhor é se juntar à festa.

E como fica a pergunta do início do texto? Afinal, a grama do vizinho é ou não mais verde que a nossa? Pomerantz descobriu que sim: o jardim do outro lado da cerca brilha com uma cor mais intensa do que a nossa. Ao olhar para a nossa própria grama, por entre as folhas, vemos também a terra marrom, que “dessatura” o verde, fazendo com que ele fique mais fraco. Quando olhamos para o vizinho, no entanto, o ângulo não deixa que vejamos a terra, só as folhas, o que fortalece a percepção do verde.

A grama do vizinho é sempre mais verde pelo mesmo motivo que a vida dos outros parece, não raramente, melhor do que a nossa: porque estamos presos ao nosso próprio ponto de vista. Sempre haverá algo que pareça melhor, mais bonito ou ainda mais colorido. Temos é de aceitar as nossas bênçãos para não perdê-las de vista. Talvez o nosso vizinho não concorde conosco. Será que se perguntarmos a ele, vai achar que a grama dele é tão verde assim? Será que não vai achar que a sua é a mais verde?


Nonato Reis

O lugar tinha algo de irreal. Recebera essa denominação em face de um registro trágico envolvendo um pescador, que habitava as redondezas do Ibacazinho, o lugarejo que me viu nascer e crescer. Certo dia, Brazilino, que tinha pouco mais de 1,5 metro de altura, saiu de casa para fazer compras em Viana, e desapareceu. Dias depois encontraram o corpo flutuando entre araribeiras inundadas pelas cheias, em meio a uma nuvem de abutres, que faziam festa com a carne em decomposição.

Um grupo de moradores, entre eles o meu pai e mais três parentes entornaram algumas garrafas de cachaça e decidiram dar ao “Baixinho”, como depois ficou conhecido, um sepultamento digno. Amarrado por uma corda de vaqueiro, presa à popa de uma canoa, o corpo viajou pelo rio Maracu e aportou em uma enseada, próxima ao cemitério do lugar. Ali, em cova rasa, aberta às pressas, selaram o destino do cadáver.

O mau cheiro de carniça, porém, provocou estragos. Um tio meu, responsável por laçar o cadáver com a corda, passou mal, vomitou e ardeu de febre. Meu pai quase morreu. Encharcado de álcool e daquele odor medonho parecia envenenado. Branco feito cera, dormiu um dia inteiro. Só despertou à noite, a cabeça rodando, o corpo todo dolorido, completamente enfastiado. Demorou muito para se recuperar.

O certo é que, a partir daquele dia fatídico, o lugar que recebera o corpo de Brazilino passou a chamar-se de “O pesqueiro do Baixinho”. No inverno a água invadia a enseada, em meio a árvores de médio porte, formando uma passagem estreita, que conduzia até o túmulo. Era o local perfeito para a pesca de bagrinho, um peixe de couro, que mede não mais que um palmo de comprimento, muito apreciado na região da Baixada. O bagrinho pode ser pescado de tarrafa, no verão, durante o dia; ou de anzol, no inverno, à noite, no período em que a lua não é vista no céu. Quanto mais escuridão, melhor para a captura do peixe.

O Pesqueiro do Baixinho, porém, se tornaria um lugar praticamente inacessível. Quase ninguém tinha coragem de adentrar aquela enseada, e os poucos que se aventuravam chegar até lá, arrependiam-se para o resto da vida. Sobre o pesqueiro corriam estórias de gelar os nervos. Uma noite dois primos meus, Roberval e João Buti (recebeu esse apelido porque quando menino, se lhe perguntavam onde havia colocado determinado objeto, ele respondia: “eu buti ali”), se armaram de coragem e adentraram o pesqueiro. João na popa da canoa, Roberval no banco do meio.

Mal iniciaram a pescaria os bagrinhos chegaram aos cardumes. Bastava jogar a isca e eles se deixavam fisgar. A alegria da mesa farta, porém, não demorou. Começaram a ouvir miados de gatos, que vinham da sepultura do Baixinho, que evoluiu para uma briga renhida entre os animais. Depois o que eram gatos se transformou em touros selvagens que pareciam se devorar. No auge do duelo sangrento, uma voz rasgou a noite como um grito de dor: “Não me mata, desgraçado!”.

João, que era o menos corajoso, segurou o galho de uma árvore e deu um impulso violento, que fez a canoa dá um salto para fora do pesqueiro. No impacto outro galho de árvore alcançou o peito de Roberval e ele se estatelou no fundo da canoa, gritando de dor e de medo. João nem quis saber. Continuou remando com todas as forças até sair de vez daquela gruta assombrada. Alcançaram o leito do rio e olharam para trás. Uma onda gigante acompanhava a embarcação, fazendo-a balançar como se estivesse em alto mar.

Pescar no reduto do Baixinho não era para qualquer um. Apenas o meu pai, um primo e dois tios tinham coragem para chegar até lá, e ainda assim retornavam, fazendo relatos assustadores sobre a experiência. Certa vez meu pai chegou no local de madrugada. Mal começou a jogar o anzol, uma brisa começou a soprar de forma esquisita, e de repente se transformou numa tempestade de rachar árvores ao meio. Teve que sair às pressas para salvar a própria vida.

Atanásio era um sujeito destemido. Desses que não se abalam por nada.

O Pesqueiro do Baixinho era o seu reduto preferido. Sempre que ia lá, algo o incomodava, mas ele agüentava firme e só saía quando queria. Um dia, porém, colocaram a sua coragem à prova. “Fizeram de tudo para que eu saísse de lá, mas eu dizia, ‘daqui só saio quando eu quiser’”. Chegou uma hora, a situação ficou insustentável. Dois homens, à semelhança de albinos, irromperam das águas, embarcaram na canoa e pressionaram as bordas da embarcação, para que ela naufragasse.

Atanásio ralhou com os fantasmas. “Deixem de presepadas que eu não estou aqui fazendo graça”. Mas a água começou a invadir a embarcação e ele se viu em perigo. Então ergueu a voz e afrontou as aparições. “Vocês me respeitem. Sou um pai de família, luto para sobreviver. Criem vergonha e deixem a minha canoa em paz!”. Ato contínuo os espectros desapareceram e Atanásio pode terminar a sua pescaria em segurança. Porém a partir dali, nunca mais o pesqueiro seria visitado, seja por vivos ou mortos. Simplesmente sumiu. Durante o dia a gruta podia ser avistada facilmente. À noite tudo eram mato fechado e silêncio.