FRASE DO DIA

Destruir Lula é roubar a voz dos pobres, só um povo infantil faria uma coisa dessa

(Domenico De Masi, sociólogo italiano)

Comentar

“Nostalgia é saudade do que vivi, melancolia é saudade do que não vivi.”
(Carlos Heitor Cony)

Confesso que sou meio nostálgico no jeito de levar a vida.

Em certas datas comemorativas então… nem se fala.

O Dia das Mães é uma data que essa minha nostalgia aflora como mais força e intensidade.

Não apenas porque me faz forçosamente lembrar de momentos maravilhosos que vivi com a minha saudosa Waldeliz, mas também pelo fato de saber o quanto a nossa vida é frágil, efêmera e, quase sempre, desgraçadamente surpreendente.

Ainda muito jovem sempre gostei de coisas antigas. De música, filmes, livros etc., tudo aquilo com mais idade me encanta e fascina – não por acaso sempre tive uma queda pelas balzaquianas!

Estar ‘preso’ ao passado tem suas vantagens e desvantagens, como tudo na vida, diga-se.

Uma das vantagens é que se pode fazer de conta que o mundo parou exatamente naqueles bons instantes de prazer e felicidade. Faz a gente não sentir essa sensação dos dias atuais em que as coisas passam numa velocidade estonteante.

A nostalgia tem ainda a capacidade de nos deixar mais sensíveis à determinadas coisas que a modernidade contemporânea nos tem negado ou não dada a chance de observá-las com mais atenção.

Nessa maratona cotidiana pela sobrevivência, na correria para consumir o que se necessita de fato e que nos empurram pela publicidade mágica, enfim, na pressa de fazermos tudo ao mesmo tempo agora, muitas vezes deixamos de contemplar as coisas que verdadeiramente dão sentido à vida.

Porém, ser nostálgico é uma desvantagem quando a fixação pelo mundo de outrora, ao invés de se tornar um prazer, uma paixão, torna-se uma prisão. E como tudo aquilo que nos domina e aprisiona é temeroso, nada melhor do que curtir a nossa nostalgia com um pé lá atrás, naqueles momentos inesquecíveis, e outro no presente real e concreto.

Ainda que esse presente real e concreto seja de sofrimento, angustia e solidão. O importante é lutar, sempre!

Um Feliz Dia das Mães para todas que tiveram a chance de ser este ser abençoado por Deus.

E bonito por natureza, como diria o poeta…


Via Fãs da Psicanálise

A família é nosso primeiro meio social, é onde construímos e nutrimos nossas primeiras relações e também onde iniciamos nosso desenvolvimento do Eu. Os vínculos costumam se desenvolver de forma intensa, por vezes nos tornando cuidadores e defensores de nossa família.

Acontece que muitas vezes esses laços se constituem de forma a não estabelecer limites a essas relações, tornando-as disfuncionais.

“Uma família disfuncional é aquela que responde as exigências internas e externas de mudança, padronizando seu funcionamento. Relaciona-se sempre da mesma maneira, de forma rígida não permitindo possibilidades de alternativa. Podemos dizer que ocorre um bloqueio no processo de comunicação familiar.” (Revista Boa Saúde)

Em muitos casos um familiar responsabiliza-se por resoluções de problemas e conflitos que não deveriam ser de sua preocupação.

Veja alguns que estão recentes em minha mente.

1. Filho que assumiu a posição de ‘chefe da casa’ após separação conturbada dos pais. Além de cuidar de si e de suas questões ‘adolescentes’, o filho sente-se na obrigação de cuidar da mãe e educar o irmão mais novo;

2. Filho de pais que vivem em meio a separações e ameaças de divórcio. O filho vira mecanismo de reconciliação/separação do casal, sendo peça fundamental para que um ciclo briga-separa-volta se mantenha a todo vapor;

3. Filha mais velha e adulta sente-se responsável por dar suporte a sua mãe (que criou a filha parte da infância sozinha), seja financeira ou emocionalmente. Tornando-se refém dos problemas da mãe, que são normalmente resolvidos pela filha ou não resolvidos para se manter esse tipo de relação;

4. Irmã que sente-se responsável por cuidar dos irmãos e já na fase adulta continua a resolver os conflitos e arcar com despesas financeiras dos irmãos;

5. Mãe que, apesar dos filhos já serem adultos e estarem casados, sente-se responsável por conduzir a vida dos filhos e assumir despesas e responsabilidades deles;

Ao expor os exemplos acima não me refiro a situações isoladas ou casos específicos. Me refiro a ciclos repetitivos que adoecem as relações e sobrepõem responsabilidades individuais, transferindo-as ao outro.

Em casos como os já citados todos têm prejuízos em suas vidas. Uma pessoa sobrecarrega-se, outra não amadurece, mantendo uma relação imatura, sem espaço para desenvolvimento com intuito de melhora.

Para alguns pode ser visto como prova de amor, mas não. Amor baseia-se em troca, respeito mútuo e limites. Estipular limites sim é uma prova de amor, amor ao outro e a si mesmo.

Normalmente quem se encontra neste tipo de situação enfrenta dificuldade em romper com o ciclo vicioso que retroalimenta, no entanto, é extremamente necessário que o indivíduo entenda o papel que vêm exercendo e o que o motiva a manter-se nessa posição (normalmente há algum ganho ou enrijecimento por um ganho do passado).

A consciência do funcionamento familiar já é de grande valia já que muitas pessoas vivenciam essas situações sem nem ao menos perceber que algo está disfuncional, mesmo em casos em que haja sofrimento manifesto.

Em alguns casos uma conversa com alguém fora da família, como um amigo, poderá alertar e alterar o status da família. Outras vezes o processo terapêutico se faz necessário.

O processo terapêutico individual por si só já provocará desdobramentos no lidar deste individuo com seus familiares.

Agora se o processo terapêutico for familiar, ou seja, todos os membros da família participarem, o processo poderá ser muito mais rápido, pois os conflitos referentes ao envolvimento e mecanismo familiar serão resolvidos por todos juntos, além de propiciar que todos entendam seu papel no funcionamento da família, possibilitando, assim, a escolha de permanecer retroalimentando os laços disfuncionais ou reescrevendo novas formas de organização e arranjo familiar.


O vazio deixado pelo ex-colaborador dos governos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Castelo Branco é sentido por todos os democratas deste país que sabem viver e conviver com as diferenças, com o dissenso e sobretudo com a inteligência enquanto arma para construir uma nação de verdade.

“No socialismo as intenções são melhores que os resultados, e no capitalismo os resultados melhores que as intenções”.
(Roberto Campos)

Ainda jovem, e militante do Partido Comunista do Brasil, encontrei-me com Roberto Campos, não pessoalmente, claro, mas na Biblioteca Rosa Castro (SESC), através da sua coluna semanal na Folha de São Paulo publicada, se não me trai a memória, às terças-feiras.

Esquerdista de formação marxista, fazia a leitura dos artigos de Roberto Campos às escondidas com vergonha ou receio, sei lá, de algum “camarada” descobrir que lia o maior “pensador direitista do Brasil”.

Na verdade meu interesse não era pelo Roberto Campos político, evidentemente, mas pela genialidade do economista, a capacidade ao seu modo liberal, erudito e profundamente racional de ver o mundo e, em particular, o Brasil enquanto uma grande nação.

Roberto Campos era de uma inteligência de fazer raiva para qualquer esquerdista. E fez muitas para mim. Aliás, virei uma espécie de masoquista intelectual ao procurá-lo toda semana para ler os seus artigos. Era sofrimento é verdade, mas, como todo masoquista, sentia-me prazerosamente satisfeito!

É que nessa época o pensamento de Roberto Campos servia, segundo pensava eu, para fortalecer as minhas convicções socialistas e repudiar cada vez mais os postulados capitalistas, pois eram tempos do governo neoliberal de FHC cuja locomotiva que puxava a economia eram as privatizações – nesse período não estava mais no PCdoB e sim no PT.

Neste ano que completaria 100 anos de idade, Roberto Campos deixa um vazio não somente para a direita brasileira – hoje disputada por gente como o porra-louca do Jair Bolsonaro, o almofadinha do João Doria, o fundamentalista do Marco Feliciano e por aí vai ladeira abaixo.

O vazio deixado pelo ex-colaborador dos governos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Castelo Branco é sentido por todos os democratas deste país que sabem viver e conviver com as diferenças, com o dissenso e sobretudo com a inteligência enquanto arma para construir uma nação de verdade.

Em tempos que o Brasil anda pelo avesso, sinto saudades daquele maldito Roberto Campos que costumava ler na biblioteca do SESC.

Nunca pensei que sentiria a sua falta.

Vida e luta que seguem.


Conforto material pleno não é sinônimo de qualidade de vida

Antonio Carlos Amado, via Vya Estelar

Antigamente os interesses de todos eram dirigidos prioritariamente para conseguir alcançar o conforto e o progresso material. Melhorar na vida praticamente significava progresso. Porém, nas últimas décadas cada vez mais pessoas começaram a dar-se conta que muitos sacrifícios não tinham sentido, uma vez que viam deteriorar-se sua qualidade de vida.

De um ponto de vista psicológico, a qualidade de vida é o grau com que uma pessoa obtém satisfação na vida. Para uma boa qualidade de vida são importantes o bem-estar emocional, material e físico; o envolvimento em relações interpessoais; as oportunidades para o desenvolvimento pessoal; o exercício de seus direitos e a capacidade de fazer escolhas de vida e participar na sociedade.

A qualidade de vida inclui também muitos fatores interdependentes: o conforto, as disponibilidades materiais, o tempo de trabalho, de lazer, o tempo para dedicar a nossos familiares, filhos, amigos, o desfrute da natureza, da cultura, da assistência sanitária etc.

Muitas pessoas geram recursos econômicos importantes, mas carecem de tempo para desfrutar dos benefícios que lhes poderia propiciar a boa utilização de tais recursos. Elas passam a vida acumulando bens materiais ou cargos de poder, mas não tem tempo para si mesmas, nem para interagir ou se dedicar a outras pessoas ou ainda para realizar atividades verdadeiramente satisfatórias. Dizemos então que essas pessoas têm uma qualidade de vida escassa, apesar de terem condições de viver em conforto material pleno.

Portanto, a qualidade de vida constitui um ponto de equilíbrio entre o tempo e o esforço que dedicamos a uma atividade e os benefícios que vamos poder obter mediante o exercício da mesma. Qualquer excesso no que se refere a algum dos fatores citados anteriormente leva a um desequilíbrio que deteriorará antes ou depois nossa qualidade de vida por falta de meios econômicos, excesso de trabalho, estresse, falta ou excesso de tempo livre, falta de contato com a natureza, perda excessiva de tempo causada pelo transporte etc. Conseguir uma qualidade adequada de vida implica uma certa capacidade para organizar-nos, valorizando friamente o que realmente desejamos; o que nos é de fato imprescindível e descartando as coisas que realmente não necessitamos para nada.

Como consequência do que dissemos está também o equilíbrio que estabelecemos entre cuidar de nós mesmos e cuidar dos outros. O altruísmo e o comportamento não egoísta de nossa parte redundam em nosso próprio benefício, recompensando-nos de maneiras que não ficam necessariamente evidentes de imediato. Quando aumentamos nossa ligação com o ambiente em que vivemos, nossa sensação de que pertencemos a algum lugar passa a ser mais forte, evitando o isolamento e a solidão.


Autora de um livro sobre o suicídio sob o ponto de vista de quem fica, a jornalista explica que a pessoa apresenta uma série de sinais antes de se matar

Paula Fontenelle, jornalista, psicanalista e escritora. HENRIQUE PONTUAL

Em janeiro de 2005, o pai da jornalista Paula Fontenelle se suicidou. Contando hoje, ela consegue identificar uma série de sinais dados por ele antes de acabar com a própria vida e que, na época, ninguém percebeu. “Meses antes, ele marcou um almoço comigo e me disse que queria abrir uma conta conjunta comigo”, diz, ilustrando um dos sinais clássicos de quem decide se matar: O planejamento financeiro dos que ficarão, que são chamados pelos médicos de sobreviventes. Depois que tudo aconteceu, ela decidiu mergulhar no assunto. Da dor, Paula publicou, em 2008, o livro Suicídio, o futuro interrompido – Guia para sobreviventes (Geração Editorial), indicado ao prêmio Jabuti em 2009.

Paula é hoje, além de jornalista, psicanalista, escritora e autora do blog Prevenção Suicídio. O nome do blog é a aposta da autora para a redução do número de pessoas que se matam e que hoje cresce como uma bola de neve em todo o mundo. A Organização Mundial da Saúde estima que uma pessoa se suicida a cada 40 segundos. Na prática, os conselhos de Paula para a prevenção do suicídio giram em torno de perguntar e ouvir. “Tem duas perguntas que você deve fazer a uma pessoa que pensa em se suicidar”, diz. “Onde dói, e como eu posso ajudar?”.

Pergunta. O luto de quem perde alguém por suicídio é diferente daquele que perde alguém por doença ou acidente?

Resposta. Eu acho que tem um ponto que é muito diferente e muito nocivo. Quando alguém morre por qualquer outro tipo de morte, as pessoas se interessam, perguntam. Se, por exemplo, foi um acidente, perguntam como foi, como a pessoa está. Querem saber sobre todo o processo da morte. No caso do suicídio, não. No momento em que você diz que a pessoa se suicidou, quem está ouvindo muda de assunto. Você se sente muito só. O tabu é muito grande. Muita gente esconde. Eu conversei com pessoas que pediram ao legista para alterar o atestado de óbito para, por exemplo, “acidente com arma de fogo”, porque não queria o estigma. Então além de você estar triste e passando por um luto normal, você passa pelo luto da incompreensão das pessoas e do tabu, porque ou a pessoa não quer falar ou pior, ela tem preconceito. Sem falar dos que se sentem culpados naturalmente.

P. Existe um sentimento de revolta com a pessoa que se matou?

R. Sim, a revolta é uma das fases. A primeira é o choque, mas isso é comum em qualquer morte. A segunda, é a raiva. Eu entrevistei uma mulher uma vez que fazia 20 anos que o marido tinha morrido e ela ainda tinha raiva. Tem gente que não sai dessas fases. A raiva é muito comum, porque é como se a gente se perguntasse “como essa pessoa pôde fazer isso comigo?”. A gente internaliza a morte do outro. No caso dessa mulher, por exemplo, é compreensível, porque a filha tinha uns sete anos e encontrou o pai morto. E ficou super perturbada. Então essa mulher dizia “eu nunca vou perdoar que ele tenha feito isso com as minhas filhas”.

P. E quais são as outras fases?

R. A culpa, que é quase inevitável. Tem um outro sentimento muito forte, e aí eu acho que é exclusivo de quem perde para o suicídio, que é o medo da hereditariedade. A gente começa a pensar “será que eu vou fazer a mesma coisa?”. O suicídio não é hereditário. O que pode ser hereditário, obviamente, é o transtorno mental. Mas o transtorno mental tem cura, tem tratamento. A minha irmã, logo depois que meu pai morreu, começou a tomar antidepressivo, mas ela já tinha depressão há muito tempo. E nela, foi acionado o gatilho oposto. Ela disse “eu não vou terminar como ele”.

P. O que aconteceu depois que o seu pai se suicidou?

R. Eu queria entender. Como acontece com qualquer um, você fica cheio de perguntas. Por que ele fez isso? O que leva uma pessoa a isso? Como eu não identifiquei? Será que ele disse para mim de alguma maneira e eu não consegui entender? Na época que comecei a pesquisar mais, este assunto não existia no Brasil. Comprei vários livros fora [do país], em inglês, e aí resolvi escrever o livro, porque tantas pessoas passam por isso no Brasil e precisam entender, precisam de informação e não têm. Do mesmo jeito que eu não tive. Por isso eu decidi escrever.

P. Nos seu livro, você fala em sinais que a pessoa dá antes de se suicidar e que podem ser perceptíveis. Quais são esses sinais?

R. Tem vários, e que são bem parecidos com os sintomas de depressão: Recolhimento, mudança de hábito – as pessoas começam a não se cuidar muito -, tristeza, isolamento. Muitas coisas se parecem, até porque a depressão é o transtorno mais associado ao suicídio. Os números mundiais mostram que mais de 90% dos suicídios são associados a algum transtorno mental. Um sinal bem importante é você deixar de sentir prazer em coisas que te davam prazer anteriormente. E existem alguns sinais que são específicos de quem está pensando em suicídio, já avançou na ideia e já está planejando.

P. Quais são?

R. Organização financeira. As pessoas se organizam, principalmente para a família não ter problema. Meu pai fez isso. Alguns meses antes dele se matar, ele marcou um almoço comigo e me disse que queria abrir uma conta conjunta comigo. Ele fez isso porque sabia que eu poderia resolver qualquer coisa

Leia Mais…


O cantor e compositor Belchior (1946-2017) – Foto: Divulgação.

Via Blog do Arcanjo

“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, nós ainda somos os
mesmos e vivemos como nossos pais”. O verso cortante que encerra “Como Nossos Pais”, que Elis Regina interpretou de forma definitiva no disco e no show “Falso Brilhante”, de 1976, marcou a carreira do compositor cearense Belchior. E, talvez, este verso seja um bom ponto de partida para começar a tentar compreendê­lo.

A triste notícia neste frio domingo da morte de Belchior, aos 70 anos, sem possibilidade de despedida prévia, nos faz constatar o óbvio: seu maior diálogo conosco é sua potente obra, que fala diretamente ao coração de quem sabe entender aquela melancolia que habitava o coração do artista.

Belchior bradou em suas músicas verdades desconcertantes, filosofou sobre a simplicidade da vida, rejeitou o sistema hipócrita, disse não ao jogo midiático — tantas vezes cruel com o artista–, e preferiu, ao fim, se isolar da convivência social e dos holofotes, nos quais jamais acreditou. Belchior escolheu ser “apenas um rapaz latino­americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes, vindo do interior”. “Teu infinito sou eu”, definiu em “Paralelas”.

Quando “Como Nossos Pais” estourou, Belchior já vivia no Rio havia uma década e sua carreira de cantor não parecia decolar. A canção, com uma autocrítica impiedosa da geração que revolucionou os anos 1960 e depois perdeu todas as utopias, foi oferecida por ele mesmo a Elis Regina, que o recebeu em sua casa.

Belchior cantou para ela aquela que seria uma das letras mais fortes já escritas na Música Popular Brasileira. Os olhos de Elis brilharam. Sagaz, sabia que estava diante de diamante bruto, que apenas precisava ser lapidado por sua voz e interpretação ímpar para tornar­se o maior sucesso de sua carreira. Tanto que resolveu abrir o disco e o show
“Falso Brilhante” com a música, tornando­a imortal.

O êxito abriu as portas da MPB para Belchior, que conheceu o sucesso popular no final
da década de 1970 e começo da década de 1980. Mas, aos poucos, foi se decepcionando com as artimanhas de uma carreira artística, que não resistiram a seu olhar filosófico implacável. Decidiu sair de cena e se isolar do mundo.

Ainda em “Como Nossos Pais”, o compositor escancara sua decepção com os homens e
seus discursos utópicos que não se sustentam diante de suas atitudes: “E hoje eu sei
que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude está em casa, guardado por Deus, contando o vil metal”. Ou ainda: “Acreditou no sonho da cidade grande e enfim
se mandou um dia”, verso de “Notícia de Terra Civilizada”.

Apesar de companheira da tristeza e da decepção, a obra de Belchior também mostra
que ele acreditou no amor, “porque o amor é uma coisa mais profunda que uma transa
sensual”, como definiu em “Divina Comédia Humana”. Porque “amar e mudar as coisas
me interessa mais”, como encerra “Alucinação”.

A despedida de Belchior, que morreu longe de todos nós por escolha própria, nesta que é
sua última performance artística, só comprova que ele foi um artista genial e coerente do
início ao fim, que só queria ser um homem normal, que jamais acreditou no endeusamento de artistas. “Eu sou como você que me ouve agora”, explicou, didaticamente, em “Fotografia 3×4”. A verdade crua deste homem profundo já faz uma falta gigante.


Fazer um curso de pós-graduação ou gastar as economias em uma viagem incrível? Colocar a calça azul ou a preta? A vida é feita de decisões, com maior ou menor impacto, todos os dias. E fazê-las de maneira clara e madura é um exercício de sabedoria sobre quem você é de verdade

Crédito: Vida Simples Digital

por Eleonora Nacif, via Vida Simples

De manhã à noite, a vida é cheia de decisões. No instante em que abrimos os olhos, tomamos a primeira delas. Levanto agora ou fico mais cinco minutinhos? Será muito cedo para mandar uma mensagem? Qual roupa devo vestir hoje? Entro nessa relação? É interessante quando percebemos a quantidade de microdecisões que acontecem o tempo todo, e são as nossas escolhas que constroem quase tudo o que está à nossa volta: a profissão, as amizades, o bairro onde vivemos, o Deus no qual acreditamos (ou não). E existem, ainda, os dilemas, aquelas decisões extremamente difíceis que temos que enfrentar em alguns momentos da vida e que podem levar anos para se dissolverem. As linhas que você lê aqui são fruto da decisão que tomei quando aceitei o convite para escrevê-las. Da mesma forma, você escolheu comprar a revista, dedicar um tempo para lê-la e, em meio a tantas matérias, decidiu se abrir para este tema. Mas, afinal, o que está envolvido nisso? Como fazer essas opções com sabedoria? Cada um desenvolve a sua maneira de enfrentar as questões que surgem ao longo do caminho, mas podemos destacar alguns aspectos capazes de ajudar ou atrapalhar as tomadas de decisão. Por que é difícil Uma das razões pelas quais consideramos que tomar decisões é algo difícil é simplesmente o fato de que temos muitas opções. Em parte, isso reflete a cultura consumista na qual estamos inseridos, com persistentes propagandas e uma indústria de marketing dedicada a influenciar nossas escolhas. A consequência disso é que frequentemente ficamos paralisados. Quando refletimos sobre o total de decisões que temos que tomar todos os dias (na esfera micro ou macro), ficamos esgotados. Assim, é importante reconhecer e respeitar a quantidade de energia gasta para isso. Uma iniciativa interessante em relação a esse esgotamento é tentar trazer para a rotina algumas decisões. Explico: ao reduzir o número de escolhas da nossa extensa lista, podemos diminuir a sobrecarga. Steve Jobs e Barack Obama, por exemplo, faziam isso com a roupa usada no dia a dia. Jobs podia ser visto, diariamente, com uma camiseta manga longa de gola alta preta, calça jeans e tênis; enquanto Obama tem como assinatura pessoal ternos pretos ou azuis. Indagado sobre por que vestir sempre ternos pretos ou azuis, o ex-presidente americano respondeu: “Porque eu tenho muitas outras decisões a tomar”. Talvez você considere uma atitude extrema fazer isso com o próprio vestuário. Porém, vale a pena questionar se a resistência é interna (eu não quero ficar entediada, gosto de usar roupas diferentes) ou externa (eu não quero que os outros pensem que eu sou um tédio). Outro aspecto que nos deixa paralisados é ter um número tão grande de escolhas e não saber o que fazer em primeiro lugar. A partir disso, especialistas em gestão de tempo criaram a chamada “Matriz Eisenhower”, inspirados na máxima de Dwight Eisenhower, ex-presidente dos Estados Unidos, conhecido, entre outras coisas, pela frase “O que é urgente raramente é importante e o que é importante raramente é urgente”. Ele, que foi general do Exército americano durante a Segunda Guerra, teve que tomar decisões com enormes riscos e consequências em curtos períodos de tempo. Então imagine que você tenha milhares de e-mails não respondidos, precise preparar uma apresentação no trabalho, seu bebê esteja chorando de fome e ainda tenha uma pilha de roupa suja à sua espera. O que priorizar? A Matriz de Eisenhower nos encoraja a “riscar da lista” as tarefas não importantes e não urgentes, “delegar” as não importantes, porém urgentes, “planejar” as importantes e não urgentes e, por fim, “fazer agora mesmo” as tarefas urgentes e importantes. Parece simples, mas nem por isso é fácil. Na realidade, todos temos nossos próprios métodos para seguir por este ou aquele caminho. Alguns decidem rapidamente, outros levam mais tempo. Alguns racionalizam, outros seguem a intuição. Uns pedem conselhos e ajuda, enquanto outros decidem sozinhos. De alguma forma, pedimos conselhos imaginando que o outro tenha as respostas para nossas perguntas sobre a vida, como se um olhar estrangeiro fosse capaz de perceber com clareza o que está realmente acontecendo. Fazer escolhas envolve muita confusão, e escutar-se pode ser um exercício difícil. É interessante quando nos damos conta de uma tendência interna a buscar a ajuda de pessoas que confirmam o que já queremos acreditar ou fazer, como se o outro apenas carimbasse uma escolha que no fundo já fizemos.

Emoção no Comando

O filósofo escocês David Hume não acreditava que a razão determinasse o comportamento na hora de fazer escolhas, mas sim a emoção. Para ele, “a razão ajuda a julgar, mas o que nos motiva a agir são os nossos desejos e as nossas emoções. Podemos pensar que somos racionais, mas no fundo a razão é só uma conselheira, não é ela quem toma a decisão”. Obviamente, nem sempre temos que acertar tudo, mas encarar esse processo com abertura, honestidade e curiosidade é fundamental. Talvez permanecer em um estado de não saber, de não decisão, quando nos permitimos passar um tempo com a questão, também seja um desafio. O estado de não saber é desconfortável. No entanto, ao pensar que sabemos tudo, não sobra espaço na mente para novas perspectivas. Queremos maquininhas para tomar decisões e resolver problemas. Porém, se conhecermos cada vez mais quem somos, vamos tomar nossas decisões a partir daí. Em Sempre Zen (Saraiva), Charlotte Joko Beck exemplifica esse ponto: “Imaginemos que se diga a Madre Teresa [de Calcutá]: ‘Bem, Madre, por que não considerar a possibilidade de viver em São Francisco, em vez de Calcutá? Aqui a vida noturna é melhor. Há lugares mais bonitos para sair e jantar. O clima é mais ameno’. Todavia, como ela toma sua decisão? Como chega à decisão de ficar naquela parte infernal de Calcutá onde trabalha? De onde brotou essa decisão? Depois de anos consigo mesma, ela vê que o lugar onde trabalha e o que faz não são um problema, são uma decisão tão somente”. Na The School of Life, gostamos de lembrar a frase de Sócrates, quando ele diz que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Uma vida examinada ou reflexiva, por outro lado, é plena de curiosidade e espanto. Dilemas são um convite para acessarmos questões íntimas sobre uma busca pessoal. Qualquer método que nos ajude a ficar mais conscientes em termos emocionais é válido. Quando sei quem sou e estou seguro da minha direção, tenho menos dificuldades para saber qual decisão tomar, ou não tomar.

A série Dilemas é uma parceria entre a revista vida simples e a The School of Life e traz artigos assinados por professores da chamada “Escola da Vida”. A série tem como objetivo nos ajudar a entender nossos medos mais frequentes, angústias cotidianas e dificuldades para lidar com os percalços da vida.

A The School of Life explora questões fundamentais da vida em torno de temas como trabalho, amor, sociedade, família, cultura e autoconhecimento. Foi fundada em Londres, em 2008, e chegou por aqui em 2013. Atualmente, há aulas regulares em São Paulo e no Rio. Para saber mais: theschooloflife.com/saopaulo.

Eleonora Nacif é advogada criminalista, professora e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Dá aulas regulares na The School of Life, em São Paulo, sobre “Como discordar”, “Como tomar melhores decisões” e, ainda, “Como aproveitar seu tempo sozinho”.


Se o músico foi “covarde” em não levar a cabo a ideia de se matar, ao menos teve a coragem de escrever sobre algo que muitos não têm ou não sabem como enfrentar essa questão.

Emocionante o texto do músico, compositor, escritor e ativista Tico Santa Cruz sobre sua experiência com ideias suicidas, publicado na sua página pessoal no Facebook.

O criador da Detonautas relata que desde a adolescência enfrenta a ideia de suicídio chegando, inclusive, a sentar na janela do prédio em que morava e criar coragem para se atirar e dar fim à própria vida, mas não teve coragem. “Me senti um covarde”, conta.

Neste planeta complicado, de estresse constante, correria pela sobrevivência, internet, redes sociais, um mundo de informações de todo que é especie etc, não é fácil viver com a tranquilidade de um monge budista.

Certa vez, durante uma palestra com um “guru” comportamental, ele falou que pensar em suicídio tornou-se algo comum, quase uma coisa natural. Chegou a dizer que “anormal, no mundo de hoje, é não ter pensado algum momento em tirar a própria vida”.

O texto do Tico Santa Cruz vai nessa direção.

Entretanto, se o músico foi “covarde” em não levar a cabo a ideia de se matar, ao menos teve a coragem de escrever sobre algo que muitos não têm ou não sabem como enfrentar essa questão.

Fiquem com o texto/depoimento de Tico Santa Cruz.

Fiquem com Deus também!

Eu lido com a ideia do suicídio desde a adolescência. Fantasio essa morte. Perdi a conta de quantas vezes só me faltou coragem para ir adiante. Os motivos sempre foram dos mais variados. Não sofri Bullying na escola, na minha época o Bullying não tomava as proporções que a internet potencializou. Minha questão estava relacionada com a sensação de rejeição que eu sentia por parte das pessoas próximas. Da incompreensão. Da não aceitação da minha maneira de ver o mundo de viver a vida. Dos conflitos intermináveis que vivi dentro da minha casa com minha família. Do sentimento de que esse lugar aqui é hostil demais para mim.

Lembro quando sentei na janela do prédio onde morava e fui vasculhando cada espaço entre os miolos do meu cérebro para encontrar o impulso que desse fim ao meu sofrimento. Não consegui. Me senti um covarde.

Eu me imaginava fincado na grade de segurança do prédio. No fundo eu queria me vingar do mundo, das pessoas.
À medida que fui crescendo, o pensamento nunca deixou de frequentar minha mente. Nos momentos mais complicados, e não foram poucos, só essa saída me parecia viável.

Não quero expor outras pessoas, mas fiz contato com o suicídio ou a tentativa dele por gente que eu amo muito, algumas vezes.
Quando comecei a fazer sucesso como artista, você pode imaginar que a realização do meu sonho me daria milhares de motivos para continuar a viver. Eu tive um filho e uma companheira forte e corajosa. Mas o contato com o outro lado da cortina – os bastidores – me revelou ainda mais farsas, falsidades, mentiras, egocentrismos, vaidades, manipulações e muitas limitações.

Isso me conduziu a um quadro de depressão e ansiedade. Comecei a ter crises de pânico diante de tantos compromissos, noites sem dormir, pequenas pressões, brigas, desgastes infinitos.

Quando tudo isso atingia o meu limite, começava a buscar novamente minha saída de emergência.

E fantasiava cortando os pulsos numa banheira, entupido de remédio e álcool para não sentir dor.

É o desespero. A falta de esperança. A falta de caminhos, perspectivas e a dificuldade de buscar outras formas de resolver as questões que mais inflamavam minha existência.

Ainda está aí?

Foi então que resolvi procurar uma terapia. Era isso ou a morte. Porque eu já sentia que estava bem perto de conseguir concretizar meu objetivo.

E encurtando um pouco outros episódios, foi que comecei a administrar meus fantasmas e meus anseios mais obscuros.

Sim!!! Foi a terapia quem me salvou. Foram os dias e dias, semanas, meses, anos de uma rotina terapêutica com a ajuda de uma especialista, que soube me conduzir a um encontro comigo mesmo que me ensinou a domar e lidar com essa questão.

Até hoje tenho meus pensamentos suicidas! Não sei… É algo que de fato está presente na minha cabeça. Contudo estou muito mais preparado para lidar com eles. E nunca tive vergonha de pedir ajuda. Ajuda mesmo!

Nestes três anos que se passaram onde eu entrei no olho do furacão dessa loucura que virou a questão política do Brasil, tive minha imagem exposta de diversas formas horríveis. Fui humilhado, bloqueado em meu trabalho, acusado de receber dinheiro que nunca recebi, rejeitado, apontado, ofendido, difamado, inclusive pelos meus próprios fãs. Exposto a linchamentos públicos por pessoas que considerava meus amigos. Minha família foi AMEAÇADA de morte, recebi milhares de mensagens de ódio com conteúdos absurdamente doentios. Vi tudo que eu havia construído com muita dedicação e amor, ser atingido por todo tipo de ataques.

Só que eu já me conhecia bem. A Terapia me deu todas as armas que eu precisava para lutar contra esse caos.

Você não tem a menor ideia do que é ser uma pessoa pública, um artista, e se ver diante de tanto ódio e tanta exposição negativa.

Calhou também de eu ter optado por ficar limpo, não estar usando nenhuma droga nesse período. Porque a droga te mina, deixa sua cabeça mais fraca, te fragiliza, te dá paranóias. Então se eu estivesse usando drogas nesse momento que passei, certamente não teria conseguido segurar a onda.Teria dado um tiro na cabeça e resolvido tudo.

Porém, eu sou forte. Aprendi a ser forte! Encarei meus desafios de cabeça erguida. Continuo encarando. A ideia do suicídio ainda aparece para mim? Sim… Mas eu sei lidar com ela, graças a terapia.

Ver essa série que trata sobre o esse ponto tão delicado da existência humana, tem mexido muito comigo. Eu sei o que é aquilo ali, de forma diferente, mas sei. Me angustia profundamente. Eu choro sem querer. Me identifico. Lido com um turbilhão de sensações. Não consigo assistir mais de 2 capítulos seguidos. Ainda não terminei.

Mas me motivou a abrir essa parte da minha vida publicamente. Para dizer que apesar de tudo, vale a pena continuar vivendo e lutando contra meus monstros. Vale a pena seguir acreditando que seja possível vencer as barreiras, as rejeições, o ódio, e todo esse cenário de medo e desespero que estamos vivendo.

Tenho razões claras para dizer a você que assim como eu já pensou ou já chegou bem perto de dar fim a própria vida. Procure ajuda! Lute! Não desista!

A gente está aqui para aprender e o sofrimento nos ensina muito! A maturidade vem. É possível seguir!

Acredite em mim.


por Nonato Reais

Como personagem, Pantera caberia em qualquer trama novelesca do saudoso Dias Gomes. Era fitá-lo e se lembrar do Bataclã, o famoso bordel de “Gabriela Cravo e Canela”, repleto de mulheres “de vida fácil” e de homens “com a vida ganha”, que driblavam o tempo se divertindo entre copos de cerveja e o vértice de um belo par de coxas. Tornou-se meu amigo no dia em que, de posse de um passe livre, entrei no ônibus que ele dirigia e lhe exibi o distintivo.

Ele olhou-me dos pés à cabeça e depois indagou: “Meu filho, tu é irmão do Tina?”, ao que respondi prontamente: “sou primo!”. Ele abriu um sorriso largo e completou: “Então pode entrar, que parente do Tina é meu também”. Depois orientou-me a guardar o documento que, como agente de trânsito, dava-me o direito de andar nos coletivos sem pagar passagem. “Isso pra mim não vale nada. O que conta mesmo é a sua ligação com o Tina”.

Era mulherengo até a alma. E também temido. Contavam que ele tinha as “costas quentes” com o dono da empresa de ônibus na qual trabalhava, de quem, mais do que motorista, atuava mesmo como capanga, ou chefe da cabroeira. Se era verdade ou não, nunca ficou provado, mas ele vivia a alardear os laços de afeto com o patrão. “É meu chapa”. Chegava à empresa sempre atrasado.  “Não tenho hora para trabalhar. Se o chefe precisar de mim, sabe que pode me acordar até no bordel, que eu já saio de lá voando”.

Ser amigo de Pantera era um privilégio e também uma segurança. Privilégio, porque, quando gostava do sujeito, dava a vida por ele. Segurança, por razões lógicas. Ninguém seria besta de se meter com gente dele. Nosso ponto de encontro era o Recanto da Luz Vermelha, onde o tratavam como lorde. Ali batia ponto geralmente após as 22 horas. Chegava e já encontrava a melhor mesa reservada, com as melhores garotas e os tira-gostos especiais.

Se me via já batia com a mão, ordenando-me para que lhe fizesse companhia. Daí para frente era por conta dele: bebida, comida, mulheres. “Meu filho, aqui tudo é nosso. Pode deitar e rolar”. Às meninas selecionadas para tomar parte ma mesa, apresentava-me invariavelmente como “o primo do Tina”. “Esse aqui é gente nossa. Cuida dele como se fosse meu filho”, dizia para as meninas que se aproximavam de mim.

O cara metia medo pelo porte físico. Tinha quase dois metros de altura, braços de pugilista. Não bastasse, andava com o peito estufado, como a chamar para a briga o primeiro que se metesse no seu caminho. Mas era um pé de valsa. Quando ia para o meio do salão acompanhado de uma dama, de tão leve parecia levitar, e entre passos e rodopios ocupava o salão de ponta a ponta, para o êxtase da plateia que o acompanhava admirada.

Eu presenciei poucas e boas com Pantera. Numa delas, ele salvou a pele do meu primo, literalmente. Foi uma noite em que, liso (como de costume), Tina decidi passar a noite com uma garota recém-saída do casamento, mas com quem fizera “amizade” e dela se tornara cliente preferencial. Já no quarto, surge do nada um sujeito com uma faca em punho, dizendo-se marido da garota, e parte para o ataque a Tina que, lívido de medo, começou a correr em volta da cama e a berrar por socorro. Pantera meteu o pé na porta, agarrou o agressor pelo colarinho e o arrastou até a saída do bordel, arremessando-o no meio da rua, como quem joga fora um saco de lixo. “Vá-se embora e não torne a perturbar o sossego deste recinto, porque da próxima eu te corto os ovos!”.

De outra feita, uma quarta-feira à noite, lá pelas 23 horas, eu saíra do Castelão, onde fora assistir ao clássico Moto X Sampaio, e por sorte dei de cara com ele ao volante. Sentei-me no primeiro banco da frente; dirigia risonho na companhia de uma garota que sentara no capô do veículo. Alguém pediu parada e ele, envolvido no clima de paquera, passou pelo ponto batido.

O cara reagiu irado. “Presta atenção, meu! Você fica aí de conversê e esquece de suas obrigações”. Pantera, que nunca engoliu sem mastigar, não deixou por menos. “Amigo, você está com ciúme dela ou de mim?”. Em resposta o sujeito sacou um “três oitão” e, arma engatilhada, desafiou-o. “Fala de novo, fala!” Na maior calma do mundo, repetiu: “Você está com ciúme dela ou de mim?”.

A distância de um para outro era de apenas um metro. Postado logo atrás deles, vi quando a mão que se segurava a arma começou a tremer. Depois, aproveitando que o ônibus havia parado, em atendimento aos passageiros que berravam desesperados, o agressor desceu do veículo e foi se afastando, sempre com o revolver em punho, até desaparecer do nosso campo visual.

Mais tarde, já refeito do choque, fui ter com Pantera que, alegre, tomava uma cerveja num bar próximo à parada final do ônibus. “Eu não sei se louvo a tua coragem ou se maldigo a tua loucura. Como é que você, indefeso na direção de um ônibus, afronta um cara com a arma apontada para ti à queima roupa?”. Ele bebeu o que restava da cerveja no copo e respondeu: “Nonatinho, pau de fogo não ficou pra qualquer um. Aquilo é um bunda mole. Eu conheço cara de tambor que amanhece”. Depois completou: “Ele teve foi sorte que hoje esqueci meu trabuco em casa. Mas o dia dele chega, deixe estar”.


Visão que orientou movimentos de centro-direita que derrubaram Dilma agora está sendo absorvida por políticos tradicionais em busca de sobrevivência

Ludwig von Mises, pensador liberal cuja obra voltou à tona no pós-PT

por Ramón Hernandez, Administradores.com

A história é cíclica, meus amigos. Por isso precisamos estudá-la, não só na escola, mas durante toda a vida. Para não repetirmos os erros e tomarmos melhores decisões. No Brasil, no campo político, o ciclo costuma se completar numa velocidade consideravelmente rápida. Não sou cientista político para apontar as causas, mas me arrisco a dar um palpite sugerindo pelo menos uma: a não resolução dos nossos problemas.

O Brasil tem muitos desafios a serem superados e se eu fosse listá-los aqui passaria um dia inteiro e talvez não concluísse. Atenhamo-nos, entretanto, aos principais: desigualdade social, pobreza extrema, infraestrutura pública deficitária, serviços de saúde precários e violência.

Em todos os níveis de governo, projetos de esquerda e de direita deixaram legados positivos na busca por resolver esses problemas. Mas é visível para qualquer um que as dificuldades persistem. Melhora um índice aqui, outro ali e no ano seguinte despenca tudo de novo.

O cidadão é relativamente paciente e costuma dar oito anos para um gestor tentar resolver os problemas. Se não resolve, um grupo adversário é levado ao poder para tentar fazer do seu jeito. Não consegue e aí cede o lugar novamente.

Essa é a essência da democracia, afinal. Onde mora o perigo, então?

O marketing da onda

Em momentos de fraturas mais severas, a polarização ideológica costuma se acentuar. Isso não é exclusividade do Brasil. Acontece em todo canto. É uma cisão que, geralmente, coloca em uma posição desfavorável quem tinha o controle do estado e, portanto, a visão que o conduzia.

Foi por isso que logo após a derrubada de ditaduras civis-militares de centro-direita na América Latina e em alguns países da Europa quase todos os partidos criados tinham no nome alguma referência a pensamentos que iam do centro à esquerda: socialista, liberal, social-democrata, comunista, verde, trabalhista etc. Isso não significou, necessariamente, que os políticos e propostas defendidas na prática estavam alinhados com os nomes das siglas. Só o fizeram porque era a “onda” do momento. E políticos fisiológicos, que temos aos montes, sempre acompanham a onda.

Hoje vivemos um momento diferente: as esquerdas na América Latina e na Europa, assim como as direitas que reinaram entre os anos 1970 e 1990, perderam a capacidade de continuar no poder e têm sido derrubadas de diferentes maneiras, pelo povo ou pelo establishment. O que cria uma nova “onda”, que traz para o centro das atenções ativistas e propostas legítimas, baseadas em ideias contrárias às que estavam no poder até pouco tempo. Mas também traz alguns lobos espertos que vão tentar se passar por cordeiros vestindo a pele do momento: o discurso liberal.

Semana passada vi uma propaganda política na televisão que me chamou atenção. Só havia jovens falando, defendendo maior participação das pessoas na política, liberdade econômica, apoio ao empreendedorismo, uso de plataformas digitais para acompanhar o trabalho dos agentes públicos, entre outras coisas. E a todo momento se apresentavam como “Livres”, uma nova força na política brasileira.

O discurso me cativou a ponto de me fazer parar para assistir a uma propaganda política até o fim. Mas, no fim, a verdade: aquela era apenas uma maquiagem de um partido nanico tradicional, criado em 1994, que até hoje orbitou outras legendas que estiveram no poder, sem propagar uma ideologia muito clara, e agora mudou o nome de PSL para Livres.

Eles não são os únicos. Muitos políticos trocaram de legenda nos últimos anos tentando se desvincular de uma imagem mais à esquerda à qual estavam associados. Figuras que nunca falaram em liberalismo ou não davam tanta ênfase ao tema agora adotaram o assunto como palavra chave em seus discursos.

Partidos apartidários

A tendência a tirar o P do nome é outra que ganhou força e em breve nenhum partido político deverá ter Partido no nome. E isso acomete não só os que tentam adotar uma imagem de liberais, mas também os de cunho socialista. Primeiro, pela rejeição da população aos partidos, que cresceu fortemente desde os protestos de 2013. Segundo, pelo ar de “movimento” que esse outro padrão de nome costuma conferir. No Brasil, especula-se que até o PT pode mudar de nome.

Já temos, por hora

– Democratas (DEM), que já foi PFL e cujas origens estão na Arena, partido que deu sustentação aos regimes militares;

– Rede, de Marina Silva;

– Novo (esse é novo mesmo);

– Livres, que na verdade é o PSL.

Estão em processo de formação

– Raiz (idealizado por políticos tradicionais da esquerda, como Luiza Erundina e dissidentes da Rede);

– Podemos (mesmo nome do movimento espanhol que levou milhões de pessoas às ruas há poucos anos e acabou virando um dos partidos mais fortes do país na atualidade). Mas, pelo que têm noticiado, o daqui é inspirado num homônimo da Venezuela, que é de centro-direita e faz oposição ao chavismo.

Fique atento. Tem muita gente séria, com propostas consistentes tentando promover transformações. Mas muitos dos lobos de sempre estão só trocando de pele.