O ex-secretário de Planejamento no governo Roseana Sarney (PMDB), Fábio Godim, mexeu com os nervos do Palácio dos Leões depois que resolveu não deixar sem resposta as bravatas costumeiras do governador Flávio Dino (PCdoB) sobre ter recebido o estado em situação “caótica” ou herdado uma “herança maldita” (conforme post abaixo).

Procurado pelo Blog do Robert Lobato, o ex-gestor topou conceder uma entrevista onde vai mais fundo na análise sobre a real situação em que o governador comunista recebeu o estado da sua antecessora.

Funcionário de carreira do Senado Federal, técnico qualificado e de competência reconhecida no Maranhão e outros estados, Fábio Gondim fez uma profunda contra-argumentação aos delírios verborrágicos de Flávio Dino.

“Poderia continuar falando sobre incontáveis realizações do governo anterior o dia todo, mas creio que já dá para se ter uma noção de que a situação herdada não é “caótica sob todos os aspectos” como afirmou o governador. Não quero desmenti-lo ou desrespeitá-lo, mas também não posso deixar de esclarecer que trabalhamos duro e com competência para melhorar o Maranhão, assim como ele está fazendo. O Maranhão não começou em janeiro de 2015 e tudo que existia naquela data, foi feito por quem antecedeu o atual governo.”

Após suas declarações, a “Rede Leões” de comunicação acionou artilharia pesada contra Fábio Gondim, principalmente na blogosfera.

E nesse contexto que o ex-comandante da pasta do Planejamento do estado concedeu a seguinte entrevista ao nosso Blog. Confira:

“Poucos estados brasileiros herdaram uma situação tão confortável do  ponto de vista fiscal e de crescimento quanto o Maranhão. Os jornais nacionais de janeiro de 2015 davam essa notícia repetidamente”.

O governador Flávio Dino insiste em afirmar que recebeu o governo em situação caótica. Como ex-secretário de Planejamento, qual a sua avaliação sobre esse tipo de declaração do governador?

Inicialmente, gostaria de deixar claro meu respeito pelo governador, que tem tentado encontrar soluções para os inúmeros e difíceis problemas do Estado. No entanto, ele tem que entender que essa visão de quem o antecedeu só fez besteiras mal-intencionadas e ele, acompanhado por uma equipe impoluta vai consertar tudo o que foi feito no passado, isso não existe!

Antes de Flávio Dino, Roseana Sarney, e seus Secretários (me incluo nesse grupo) estiveram por aqui pessoas que trabalharam honestamente dando o melhor de si para melhorar o Maranhão. Não posso acreditar que essas pessoas não lograram êxito nenhum e apenas a nova equipe será capaz de deixar um Maranhão melhor para quem o sucedeu.

Ora, quando assumi a Pasta do Planejamento, em 2010, o orçamento total do Maranhão gravitava em torno dos R$ 8 bi. Hoje, ultrapassa os R$ 18 bi. Mais de 100% de aumento nominal em 7 anos. Aliás, mesmo com a crise, tanto orçamento quanto a economia têm quase duplicado a cada cinco ou seis anos. Isso é incrível! É uma situação bastante confortável para qualquer Secretário de Planejamento.

Ainda tem a questão da Previdência. Cansei de ouvir elogios à Previdência do Maranhão nas reuniões do Conselho Nacional. O Ministério da Previdência também fazia elogios. Temos segregação de massa, equilíbrio financeiro e um déficit atuarial absolutamente passível de ser solucionado no médio prazo. Os imóveis que constituem o patrimônio do FEPA todos protegidos contra invasão. Enfim, um problema a menos para um governante, pelo menos até 2014. Depois disso, não acompanhei mais.

A despesa de pessoal estava sob absoluto controle. Fizemos um Plano de Carreiras que trouxe justiça salarial. Acabamos com remunerações abaixo do salário-mínimo, recriamos o sentido de carreira ampliando a diferença entre a primeira e última referências, unificamos tabelas… Enfim, demos lógica para o sistema remuneratório do servidor do Executivo estadual. Além disso, esse Plano manteve a despesa sob limites da LRF previamente estabelecidos. Só teria aumento se a RCL crescesse percentuais previamente estabelecidos. Isso está na lei!

Além disso, pouca gente sabe, mais foi a partir de um questionamento feito pelo Maranhão em janeiro de 2011 junto ao Tesouro Nacional que foi reinterpretada a resolução do Senado e revistos os limites de endividamento para todas as unidades da federação. O Maranhão passou de menos de R$ 200 milhões para a casa dos R$ 2 ou 3 bi. Veja, isso é recurso que pode ser utilizado para grandes investimentos, liberando recursos do Tesouro para outras despesas.

Tivemos, ainda, avanços importantes com o recadastramento geral do servidor, passo importantíssimo para a revisão dos cálculos atuariais da previdência e tomadas de decisões estratégicas; virtualizamos processos, deixamos um sistema de tramitação de processos informatizado, criamos a ouvidoria, implementamos um sistema de informações gerenciais e transparência. Tudo isso permitiu que tivéssemos uma visão muito ampla do que acontecia. Deixamos de fazer gestão no varejo e passamos e tomar grandes decisões com toda segurança.

Nossas receitas próprias cresceram exponencialmente nesse período, fruto de um esforço de arrecadação, com implantação de inteligência da receita, sistemas informatizados, nota legal e tantos outros instrumentos que deram resultados práticos e mensuráveis.

Estou falando mais das áreas à frente das quais eu estive para não acabar cometendo alguma injustiça com outras Secretarias, mas posso afirmar que testemunhei avanços importantes em diversas outras áreas mais finalísticas do Estado.

Poderia continuar falando sobre incontáveis realizações do governo anterior o dia todo, mas creio que já dá para se ter uma noção de que a situação herdada não é “caótica sob todos os aspectos” como afirmou o governador. Não quero desmenti-lo ou desrespeitá-lo, mas também não posso deixar de esclarecer que trabalhamos duro e com competência para melhorar o Maranhão, assim como ele está fazendo.

O Maranhão não começou em janeiro de 2015 e tudo que existia naquela data, foi feito por quem antecedeu o atual governo.

Concluindo, acho que poucos Estados brasileiros herdaram uma situação tão confortável, sob esse aspecto, quanto o Maranhão. Os jornais nacionais de janeiro de 2015 davam essa notícia repetidamente. Em especial, falavam que, sob o ponto de vista do equilíbrio fiscal da despesa de pessoal, o Maranhão ocupava a segunda posição, atrás apenas do Rio de Janeiro, inalcançável em razão dos royalties do petróleo. Creio que cumprimos o objetivo do governador Flávio Dino, de entregar um Maranhão muito melhor do que recebemos. Espero, honestamente, que ele também consiga.

O senhor vê alguma possibilidade do Maranhão chegar à situação parecida como a dos estados do Rio Grande do Sul ou Rio de Janeiro?

Nada é impossível. Uma má gestão por longo período conseguiria destruir qualquer trabalho de base que tenha sido feito anteriormente. No entanto, prefiro acreditar que o atual governo terá a capacidade de continuar as boas práticas dos governos anteriores e aprimorar o que ainda não pôde ser aprimorado.

O estado do Rio de Janeiro, embora tenha o segundo maior PIB do Brasil, o crescimento anual de sua economia não chega nem perto do crescimento do Maranhão, que, em alguns períodos dos últimos quinze anos, foi o Estado com o maior crescimento do PIB. Essa é uma situação extremamente favorável para os auxiliares do governador responsáveis pela gestão da receita e despesa.

O Maranhão teve um baixo crescimento do seu PIB sob o governo Flávio Dino. A que se deve isso?

De fato, o PIB maranhense vinha numa série de crescimentos sucessivos, em descompasso com a União e as outras unidades da federação, fruto de trabalho voltado para a atração de investimentos feito ao longo dos anos. Nos últimos dois anos, justamente no atual governo, embora ainda possamos observar o crescimento nominal do PIB, há uma queda no crescimento real, descontada a inflação do período. O gráfico retirado de relatório do próprio governo dá uma dimensão exata disso.

Seria fácil jogar a culpa no atual governo e criticá-lo pelo fraco desempenho. No entanto, essa crise é sem precedentes e justificaria, sim, crescimentos mais modestos ou mesmo reduções do PIB, qualquer que fosse o governante. Difícil escapar dessa realidade.

Contudo, reparemos que o PIB nominal vem numa crescente forte, passando de R$ 46 bi em 2010 para projetados R$ 96 bi em 2017. Mais de 100% de aumento em sete anos. Mesmo com crescimento mais comedido nesse último período, muito país europeu gostaria de estar experimentando essa “crise”. O Maranhão, localizado na fronteira do crescimento do Brasil, é um ponto fora da curva em termos de crescimento da economia.

Explique para os nossos leitores o que realmente é e para que serve o empréstimo do BNDES feito no governo Roseana Sarney e que hoje é usado pelo atual governo inclusive para bancar o Mais Asfalto.

Fomos muito criticados, inclusive por quem hoje está no poder, por termos assumido esse financiamento do BNDES. Diziam que estávamos dando benefícios para a atual geração e endividando gerações futuras. O aumento do volume de recursos disponíveis foi duramente criticado.

Curiosamente, com a mudança de governo, o financiamento do BNDES continua sendo utilizado normalmente e, parece-me, passou a ser considerado ferramenta válida para a gestão pública.

Na verdade, eu entendo que o financiamento, bem aplicado, é uma excelente oportunidade de antecipar níveis de evolução para a população e garanti-los para as gerações futuras. Mas é preciso ter muito cuidado em destinar os recursos para investimentos que, de fato, tenham resultados duradouros na geração de riqueza e bem-estar.

Por exemplo, a duplicação de uma importante estrada de escoamento de produção, ou a ampliação da capacidade instalada de um porto, a construção de uma ferrovia etc, valerá para a geração atual e as futuras… Outras ações, de menor alcance, não deveriam ser feitas com recursos de financiamento.

Não é ciência exata e pode haver mil argumentos para combater minha opinião. Mas é assim que eu entendo e será assim que faria se tivesse oportunidade de decidir.

O senhor tem falado com a ex-governadora Rosana Sarney? O senhor acredita numa eventual candidatura dela ao governo do estado em 2018?

Bem, sim, tenho uma excelente relação com a governadora Roseana Sarney, que depositou grande confiança em mim e me nomeou Secretário de Pastas estratégicas em seus dois governos. Nos falamos com certa frequência.

Pouca gente sabe, mas ela passou por momentos difíceis de saúde. Nos últimos anos, percebi que foi um sacrifício imenso para ela estar à frente do governo e dar os comandos necessários. Creio, inclusive, que esse foi o principal motivo pelo qual ela decidiu se aposentar da política. No entanto, recentemente, ela fez uma cirurgia e não sente mais dor.

Ora, ela respira política e ama o Maranhão e seu povo. Além disso, é muito carismática. Nunca falamos abertamente sobre candidatura dela em 2018, mas, honestamente, eu não descartaria essa possibilidade.

Claro que o xadrez político é um jogo difícil de se jogar, outros jogadores estão em campo e ganharam estatura, como é o caso do Senador Roberto Rocha. Então, é preciso observar e interpretar corretamente os sinais e isso ela sabe fazer muito bem… Vamos aguardar os acontecimentos desse ano. Também estou curioso

Qual a experiência que ficou da sua candidatura a deputado federal em 2014?

Amei a experiência. Não sou de família de políticos, nunca havia me candidatado antes. Não tive de quem “herdar” apoio, não sabia como agir, exatamente. Mas foi um excelente período da minha vida. Viajei muito por todo o Maranhão. Foram uns 40 mil km, cobrindo 120 municípios de carro.

Adoro gente, adoro ouvir o que tem a dizer. Muitas vezes, eu me pegava pensando como muito do que fazemos na capital não chega aos cidadãos de comunidades mais afastadas. Era decepcionante, por um lado, mas revigorante, por outro lado, porque aprendi muito e, hoje, tenho muito mais condições de ajudar e fazer melhor para o nosso povo.

Quando fui convidado a me candidatar, muito sem convicção do que deveria fazer, conversei com meu pai. Ele nunca foi político, não nutre nenhuma simpatia especial por política. Pensei que iria tirar isso da minha cabeça e pronto. Para a minha surpresa, ele veio com uma fala recente do Papa Francisco, na qual dizia que tinha chegado a hora dos homens de bem entrarem na política, sob pena vermos o mal se disseminar em nossa sociedade. Ele disse: – Vá! E eu fui!

12 comentários em “Exclusivo: “O Maranhão não começou em janeiro de 2015″, diz Fábio Gondim

  • Foi uma bela levantada de bola meu caro, tendo em vista que você não fez perguntas incômodas. Por exemplo. Como foi maquiado o desparecimento de 1 bilhão de reais da saúde, revelado pela polícia federal na Operação Sermão aos Peixes? Convenhamos. O senhor Fábio Godim sabe o que está falando, não dá pra dizer que tudo isso aconteceu debaixo de suas barbas sem que ela tomasse conhecimento. a mesma pergunta se aplica a Máfia de SEFAZ.

  • Não sei bem mas, a justiça parece que possui certos trâmites não é meu caro. Já houve julgamentos ?

  • Além de muito clara e objetiva a entrevista, é digna de registro a elegância e o respeito com quê o ex-secretário se refere ao governador e seus auxiliares, coisa inimaginável nesse time de amadores de Flávio Dino, a começar pelo próprio, que só se refere aos ex-integrantes do governo passado de forma mal educada e agressiva.

  • Bom seria se na política as pessoas argumentassem dessa forma, ao invés de sempre se taxarem de salvadores da pátria e os seu adversário de grandes FDP. Todo mundo erra, mas também acerta. A entrevista foi muito boa e ressalta realizações dos governos anteriores que de fato foram decisivas para a situação fiscal vivida hoje pelo estado. O problema é que se esse senhor ou qualquer outro da oposição assumisse o governo na próxima gestão, faria o mesmo que o Dino tem feito, desqualificando-o desrespeitosamente e cuspindo no prato em que comeria.

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